MINDELIS: O Escravo do Blues

Por Edson Travassos

 

Nuno Mindelis é um músico ímpar no Brasil. Faz parte de um seleto grupo de músicos do país que alcançaram o reconhecimento internacional. Em sua carreira, coleciona feitos e histórias dignos de um Bluesman  importado (e ele de fato o é: Nasceu em Angola e, fugindo da guerra civil que ocorreu à época em seu país, mudou-se com seu pai para o nosso Brasil). 

Em uma ocasião, venceu um concurso promovido pela revista Guitar Player americana, deixando para trás inclusive os guitarristas daquela  terra do blues. Em outra, gravou dois discos com a banda de Stevie Ray Vaughan, a Double Trouble, regalia para muito poucos afortunados de talento (tais como Kenny Waine Shepherd e o irmão mais velho de Stevie, Jimmie Vaughan) . É presença quase obrigatória em qualquer festival de blues que se preze e é muito requisitado lá fora, tendo sido inclusive recentemente convidado para uma grande temporada na Inglaterra, convite que pretende aceitar tão logo passe o período de lançamento de seu novo CD, “Outros Nunos”, trabalho que transcende o blues, percorrendo outras influências do guitarrista. 

Nesta conversa informal, falamos muito sobre Blues (é claro!). Mas não sem antes eu matar a minha curiosidade e perguntar a ele o que o fez escolher permanecer no Brasil, depois que  a guerra civil de seu país tinha acabado. 

Sua resposta: “_Na época eu comprei um carro a prazo e conheci uma mulher. Quando você compra um carro a prazo e conhece uma mulher no Brasil, você não vai mais embora...foi exatamente isso o que aconteceu...”

 

 Nuno, “vamos começar pelo começo”, o que te levou a se tornar um músico? 

Na verdade, nada me levou. Eu nasci músico. Isso é uma certeza que eu tenho dentro de mim. Eu ganhei um violão com 9 anos porque os meus pais não tinham dinheiro pra me dar antes. Mas eu cobrava um violão desde que me lembro de mim, de pequenininho. Me lembro de passar na vitrine e ficar fazendo birra pro meu pai comprar um violão. Tinha até uma história clássica, que ele contava, de que eles mudavam de calçada por que senão eu ia ficar fazendo um escândalo, porque eu queria o violão na hora, nem que fosse meia noite. Isso eu criança, com quatro ou cinco anos.

Mas antes de ganhar esse violão eu já tocava com instrumentos improvisados, feitos por mim mesmo. Minha mãe trabalhava o dia inteiro, e meu pai também, então eu era bastante “rueiro”. Eu  tinha meus amiguinhos de rua, que na maioria eram negros, da minha idade, molecões. Eles tinham lá suas tradições de fazer instrumentos, e faziam instrumentos com latas e linhas de pesca.

Eu não tinha uma tia música, ou um tio, nem pai, nem mãe. Não havia nada que me levasse à música, a não ser alguma coisa que eu considero oculta. Então, eu não decidi ser músico. Eu acho que não se decide ser músico. Se for um músico de verdade, normalmente não decide ser músico. Você não decide ser poeta ou ser pintor, é uma coisa equivalente.

Quanto a ser um músico profissional, levou um tempo, pois como eu disse, eu estava começando uma vida nova no Brasil. Eu não tinha nada, eu vim com a roupa do corpo, começou tudo de novo. Isso foi uma interrupção da minha vida, essa coisa de áfrica, angola, e depois outras coisas. Talvez se não fosse isso eu poderia ter alcançado patamares que só alcancei lá pelos 30, ou 40 anos. Talvez tivesse alcançado uma carreira mais sólida, porque a minha carreira é uma carreira instável. Não só a minha, todas as carreiras que não forem a carreira da Xuxa, do Barão, do Paralamas e de mais dois ou três são carreiras instáveis no Brasil, fora o Roberto Carlos...

 Tocando nesse assunto, tem muita gente que nasceu músico e acaba seguindo outra profissão na vida por esse motivo, pela falta de estabilidade, e acaba frustrado. Outros seguem a carreira musical e se frustram justamente por essa instabilidade. Se você começasse de novo, faria do mesmo jeito?

 Teria que fazer! Há dois ângulos nisso que você coloca. Primeiro, eu não estou certo se outros que nasceram músicos e não conseguiram ser músicos acabaram se tornando frustrados. Não sei se isso é uma realidade, porque a minha impressão é que quando o cara nasce músico, a violência é tão grande pelo fato de não estar sendo músico, que ou ele volta pra música ou ele se mata. Não consigo ver a coisa de outra forma, eu posso estar errado, evidentemente. Eu até costumo dizer: Se você é músico, não se preocupe. A molecada fica ansiosa. Diz: “Pô, mas será que... não sei o que...mas eu tenho que trabalhar não sei aonde...”. Digo a eles: Não interessa, não se preocupe.

Vou fazer uma comparação "chula", pra dar uma idéia da inevitabilidade: Se o cara é gay e briga pra não ser, ele briga, briga, briga e chega uma hora que não dá. A medicina explica isso. O cara acaba num psiquiatra e acaba decidindo que afinal vai assumir isso ai. Acho que com a música é um pouco isso, é uma coisa que eu creio ser mesmo quase genética ou coisa parecida. Você acaba pirando...

 E o Blues? Pra você também é quase genético? O que te levou ao Blues? 

Bom, aí, no Blues, eu já posso dizer o seguinte: No caso do Blues já é com certeza uma coisa "cultural-ambiental", eu acho que é a “visceralidade” ou o “poder de dependência viciante”  do blues. Você ouve um blues num determinado contexto, numa fase da sua vida, junto ou à parte de uma determinada formação, e vai ouvindo um blues... e o blues é algo viciante, ele tem um componente que é meio mágico, não sei qual seria o adjetivo correto, mas ele tem algo que, ao meu ver, é mais perigoso, no bom sentido, do que outros gêneros musicas, que você pode gostar muito, mas não se tornar viciado. É um componente quase de fanatismo. Uma coisa estranha. Hoje em dia, eu sei que eu sou um escravo do blues. Não é frase de efeito, não é clichê. 

As tuas músicas até falam disso. Duas delas, em dois álbuns diferentes, dizem que você, por mais que tente, não consegue se livrar do Blues.

 Eu cheguei a falar isso? Ah, é! É fato, é fato... I can’t stop sing the blues... Poxa, você me lembrou de coisas... Quer dizer, eu falo isso de forma tão sincera que eu nem me lembrava de ter falado tantas vezes. Mas, de fato, não é mesmo clichê, nem nada. Eu sei que sou escravo por uma razão simples: Eu quero me libertar e não consigo. O blues foi minha formação original. Eu gostaria de ampliar o meu vocabulário, mas mesmo ampliando, sempre vai ser com blues. Isso me minimiza em relação ao gênero. Estou me sentindo claustrofóbico. 

Tem gente que considera o Blues limitado...

 Tem a turma que entende que o blues é fácil. Confunde simples com fácil. Isso é uma confusão que nunca deve ser feita. O blues é simples, mas não é fácil. Nada é fácil. As coisas mais simples são inimitáveis, o que as torna complexas. O John Lee Hooker, por exemplo. Tem muita gente que acha que ele não toca nada, o que eu discordo. Mas ele é tão simples, tão orgânico e tão verdadeiro, que é como um poema, uma pintura. Você pode copiar o Lee Hooker, mas é como você pegar um poema do Drummond, repetir o que ele escreveu e dizer que você é poeta. E, aliás, isso está acontecendo com o Stevie Ray Vaughan à exaustão...

 Falando em Stevie Ray Vaughan... Você gravou dois discos com a Double Trouble (banda de Stevie Ray), como isso aconteceu?

 Foi em  Austin, Texas, que é um celeiro de guitarristas tradicionais, como Johnny Winter, T. Bone Walker, Fred King, etc. Havia ali um clube chamado Antones, e lá tinham canjas (encontros de músicos improvisando juntos) lendárias. Então o dono do clube (De mesmo nome) começou a gravar essas canjas. E as gravadoras autorizavam até o cara a gravar essas canjas com caras famosos, como Albert Collins. Era tão interessante que acabou virando um selo com alguma lenda. E um brasileiro que queria importar discos da “Antones” foi lá conversar com eles e levou discos de blues do Brasil. E levou um disco meu. Eles gostaram e a partir daí eu ganhei respeito com o pessoal da Antones. E começou um namorico: Vamos fazer um disco, vamos fazer um disco... E resolveu-se que iam produzir um disco meu. Eu mandei um rascunho do que eu iria fazer pra eles saberem quais músicos deveriam chamar. Gravei eu mesmo, como sempre faço, o baixo, a guitarra e a bateria, e mandei pro cara ter uma idéia do que seria o disco. E eles tocavam aquilo lá pelo clube, e o Tommy Shannom (baixista de Stevie Ray Vaughan) tava lá, escutou e perguntou o que era. E o Antone explicou que era um cara do Brasil, que ele tava produzindo um disco, e perguntou em tom de brincadeira (mas com esperança): Quer participar? E o Tommy falou que tava dentro. Ele inclusive gostou do baixo que eu gravei. Me disse que eu era um baixista. O Tommy fazendo, o Chris Layton (baterista de Stevie Ray Vaughan) fazia também. Eles iriam fazer umas duas músicas e acabaram gravando o disco inteiro. Foi um disco gravado em um dia e mixado em outro.

 Nesse disco gravado com a Double Trouble (“Texas bound”), você tocou uma música do Hendrix em versão instrumental ("Castles Made of Sand"), coisa que o Vaughan havia feito também (com "Little Wing"). O Vaughan é uma influência pra você, ou é mais o Hendrix? 

Mais Hendrix. Sobre o Vaughan, eu tento explicar e muita gente não consegue compreender: Você não se influencia com os teus contemporâneos. A fase de eu ser influenciado já passou há muito tempo. Então, se você falar de Johnny Winter, quando eu tinha 15, 16 anos, ou se falar de Jimi Hendrix, ou de Rich Blackmore, ou Santana, tudo isso foi influência. Mas o Stevie era um cara que era um pouco mais velho que eu, ele estava, na verdade, ouvindo as mesmas coisas que eu. É claro que, de alguma forma, ele era tão visceral e tão pessoal, tão forte, que você acaba se influenciando. Mas não é uma influência que eu citaria. É uma influência involuntária, inconsciente, não uma influência direta, consistente.

 E o que seriam as suas influências diretas, consistentes? 

Eu acho que mais direto, mais consistente, é tipo Big Bill Broonzy (as pessoas não sabem, mas eu faço bastante Delta Blues, embora não ao vivo), Elmore James, Hendrix, Santana e uma influência infernal que eu nunca cito e acho “injustíssimo” não citar, que é o John Fogerty, do Creedence (aos 15 anos eu copiava tudo quanto era riff dele).  Santana é uma influência que eu nunca citava. Mas hoje eu posso citar que o Santana naquela altura me influenciou bastante. Aliás, essa coisa da “fritação”, digamos assim,  tem a ver com aquele momento em que era a época dos grandes “guitar heroes”. A guitarra era o negócio, e a guitarra bem tocada, bem arregaçada, bem ágil. Então, eu sou, no bom sentido, uma vítima desse período. Hoje eu tenho mais cuidado com isso e mesmo assim continua sendo uma coisa “escravatura”. Mesmo pensando muito conscientemente em melodia, eu acabo me dando conta de que “fritei” mais do que deveria. É uma coisa psicológica, como aquela coisa “não vou mais fazer blues” e acabo fazendo. Acho que aos poucos eu vou relaxando mais. Leva muitos anos pra você aprender a fazer isso. Às vezes eu ouço moleque que toca há 3, 4, 5 anos achando que já faz tudo, e na verdade tá aprendendo todo dia. 

E sobre os novos projetos? No que você está trabalhando atualmente? 

Estou lançando um novo disco, fora do tempo, tá saindo em novembro, que se chama “Outros Nunos”. Vai sair agora. Vai ser falado o que tiver que ser falado agora, mas vai ser retomado só depois do carnaval. Dependendo do interesse que ele for trazer, e eu suspeito que ele vá trazer um interesse maior do que a gente mesmo espera, vão surgir convites pra fazer os lançamentos. É um disco totalmente em português, nada cantado em inglês. Eu tirei a guitarra da capa, tirei a guitarra de tudo quanto é canto possível, tirei a palavra blues do disco inteiro. Tanto é que tinha uma música chamada de “Bossa-blues” que eu chamei de “Bossa-folk”, pra não chamar blues, não enganar o consumidor. É um disco que tem que ser lido, ele tem letra, tem poesia, enfim, é um outro lado. É um outro Nuno que quem conhece o Nuno conhece o que tem no disco, mas quem só conhece o bluseiro vai ver outro Nuno. É um trabalho que vai me fazer voltar pro blues eventualmente melhorado, mais "oxigenado". Você tem que sair do processo às vezes pra saber vê-lo à distância e voltar pra ele muito melhor, então isso aqui só vai fazer bem. Pra mim mesmo e pra quem tiver de fora. E a volta será muito melhor. É como você sair de férias. Você sai de férias e vê a vida de outra forma, você olha para tudo e tem uma perspectiva completamente diferente, pra melhor.

 Aproveitando o gancho, me diga uma coisa: O blues teve um “boom” na década de 60 quando Hendrix, Clapton, John Mayall, Cream, Roling Stones e outros propagaram  seus novos sons de raízes bluseiras na Inglaterra. Depois ouve uma certa estagnação, até chegar o novo “boom” na década de 80 com Stevie Ray Vaughan, que com sua paixão e modo visceral de tocar, chamou a atenção de todos novamente pra caras como Buddy Guy, Albert King, Albert Collins e outros bluseiros da “velha guarda”. Com a morte de Stevie Ray, me parece que a coisa caiu mais uma vez. E me parece que não tem nada acontecendo de novo que faça voltar uma nova era Blues. Como você vê esse cenário, tanto mundialmente quanto aqui no Brasil?  Você acha que o que está faltando é esse lance da “oxigenação”? Você acha que é isso o que está faltando pro blues voltar a crescer? 

Eu acho que sim. Quer dizer, falta um oxigênio porque o Stevie queimou todo o oxigênio. Na verdade, como eu disse, ele era muito forte, então ele mudou uma geração. Ao mudar essa geração, ela foi na cola dele e o que você teve foram reproduções (pra não ser muito sacana, eu diria medíocres) do Stevie.

Mas eu acho que, além da questão do cíclico, como você mesmo disse, nos anos 60 foi toda aquela coisa e apareceu o Hendrix, vindo do espaço, além do Clapton etc. Nos 70 você pode considerar o Johnny Winter. Aquilo foi uma febre infernal. Tinha lá uns “guitar heroes” na praia blues. Depois adormeceu de novo. Veio o punk, veio tudo. Aí o Stevie chegou lá e mandou! Então, não há razão pra crer que daqui a dez anos não haja, enfim, a volta de um super-herói da guitarra blues, eu não duvido muito que isso aconteça.

O que eu tenho notado é que isso é mundial sim, mesmo lá fora, onde a linguagem blues era perfeita, hoje eu vejo guitarristas estranhos... Ainda assim, essa molecada, essa geração intermediária que foi influenciada por Stevie, leva um tempo até absorver. O cara começou ouvindo Stevie Ray considerando que tava tocando blues. Então às vezes ele tá tocando igual ao Albert King sem nunca ter ouvido o Albert King. Você não pode quebrar as regras se não souber as regras. Então a molecada tá achando que tá quebrando regras, mas na verdade ainda estão aprendendo. Agora, mesmo os que são promissores e que um dia vão ser grandes músicos eventualmente, estão sacando, estão voltando, por que a partir do Stevie eles estão percebendo que a vida não é só isso.

 E você acha que o que falta atualmente pro blues é mais estudo nas suas raízes ou fazer isso que você está fazendo agora, dar uma respirada, sair do blues e trazer mais oxigênio, como o Stevie e o Hendrix fizeram cada qual à sua maneira?

 Eu acho que é um pouco das duas coisas. Você não embrutecer no blues, se oxigenar em outras áreas pra ter uma perspectiva maior do blues, mas também, em muita medida, incorporar uma linguagem blues, o que é complicado. É uma coisa equivalente a eu incorporar uma linguagem samba. Ou você pega essa doença desde pequeno e aquilo se torna quase como uma língua sua, ou depois a chance de você ter um blues de verdade é meio difícil. O Clapton toca blues porque quando tinha 10 anos estava ouvindo blues. Na minha opinião não há a possibilidade de bluesman convertido. Digo mais, as pessoas que vão fazer o blues no Brasil, no futuro, são as pessoas que tinham 10, 12, 15 anos quando o boom de blues surgiu por aqui. É aquela informação no berço. E é dali que vai sair o negócio.

 

Nuno Mindelis e sua Gibson 

Nuno Mindelis e sua Fender 

Nuno Mindelis e seus "Dirty Little Toys"

  Discografia:

- Nuno Mindelis & the Cream Crackers (1992- Brazilian Blues)

- Nuno Mindelis - "Texas Bound" (1998-Eldorado)

- Nuno Mindelis- "Blues on the outside" (1999-Trama)

- Nuno Mindelis - "twelve hours"  (2005 - independente)

 

 

 

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