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Flávio
Guimarães: 20 anos de estrada
Por
Edson Travassos
Não
há como se falar em gaita blues no Brasil sem mencionar o nome
“Flávio Guimarães”. E é mesmo difícil encontrar algum
gaitista no Brasil que não tenha, de uma forma ou de outra, tido Flávio
Guimarães como influência ou pelo menos referência.
Sua
reputação chegou a extrapolar o mundo “blueseiro”,
rendendo-lhe gravações com músicos de renome dos mais variados
estilos, tais como Almir Sater, Léo Jaime, Ângela Roro, Ed Motta,
Paulo Ricardo, Rita Lee, João Penca e os Miquinhos Amestrados,
Gabriel – O Pensador, Zélia Duncan, Cássia Eller, Fernanda
Abreu e Luís Melodia, dentre outros.
Já
teve o privilégio de dividir o palco com várias lendas vivas do
blues tais como Buddy Guy, Charlie Musselwhite, Howard Levy, Mark
Hummell, Mark Ford e Sugar Blue, mantendo com muitos deles constante
intercâmbio e mesmo relações de amizade.
Foi
praticamente o precursor da gaita diatônica no Brasil, e um de seus
maiores divulgadores, seja através de seus shows, de seus discos ou
de suas aulas (sendo ele, inclusive, o autor da primeira vídeo-aula
brasileira de gaita).
Neste
ano, completa com sua banda, o Blues Etílicos, 20 anos de carreira.
Tal feito, por si só, já é impressionante para qualquer banda, e
digno de admiração. Porém, em se tratando de uma banda brasileira
de blues, é mais que isso: É um feito inédito!
Diria até quase inacreditável!
Neste
“bate-papo” informal, conversamos um pouco sobre a sua carreira,
suas influências e seus planos para este ano.
Flávio,
como a gaita surgiu em sua vida?
Eu
comecei tendo aulas com o Maurício Einhorn, e a gente aprendia
choro, bossa nova, standards
de música americana... tudo na gaita cromática. Isso foi em 83,
84. Depois eu comecei a ouvir alguns discos: do Muddy Waters, do
Johnny Winter... um disco do Sugar Blue também. Esses discos me aguçaram
a curiosidade de saber qual gaita era aquela, que tinha o som bem
diferente da cromática. E na época, no Brasil, era difícil. Tinha
muito pouca gente tocando gaita. Então eu levei algum tempo pra
descobrir até mesmo que aquelas gaitas dos discos que eu ouvia eram
gaitas diatônicas. *
*
(Nota do entrevistador – Gaitas cromáticas são gaitas que contém
todas as notas da escala cromática, de modo a poderem ser
utilizadas em qualquer tonalidade. Já as gaitas diatônicas, que são
as normalmente utilizadas no blues, também chamadas de “gaitas de
tom”, contém apenas as notas da escala de um determinado tom. Por
isso, é necessário uma gaita diferente para cada tonalidade
diferente, dependendo do tom em que cada música está sendo
executada. As gaitas cromáticas e as diatônicas são diferentes
tanto em suas características técnicas quanto em sua sonoridade.)
Então
você conheceu o blues através desses gaitistas. A gaita te levou
ao blues...
Pois
é. Eu gostava de gaita, eu gostava de rock, eu ouvia outras coisas
também. E quando eu descobri a gaita nos discos do Muddy Waters,
tinha poucos discos na época aqui no Brasil. Tinha uma coisa ou
outra do Muddy Waters, do Johnny Winter, pouca coisa que tinha
gaita. Foi essa descoberta que me levou a comprar uma gaita diatônica,
a tentar soprar, a tentar aprender, até que eu fui desenvolvendo
sozinho, como autodidata, já que não tinha professor pra esse
instrumento naquela época.
Com
o passar do tempo, eu tive um contato com o Sugar Blue, que veio ao
Brasil na banda do Buddy Guy. Isso foi em 85, 86... E nesse contato,
ele falou: “Pô, bicho, se você quer aprender a tocar esse
instrumento, você tem que ir pra Chicago. Lá estão os
melhores...” E Chicago tinha o Billy Branch, o Sugar Blue, o James
Cotton, o Junior Wells, além dos guitarristas Loonie Brooks, Son
Seals e Buddy Guy. Chicago fervia no anos 80.
Mas
apesar de eu já estar com vontade de ir desde 85, só em 88 é que
eu consegui ir pra Chicago. E acabei tendo várias aulas com o Sugar
blue e com o Howard Levy. Até hoje eu me correspondo com eles e
trabalhamos juntos nos anos que se sucederam.
O Howard Levy, inclusive, estará em São Paulo de 02 a 04 de
março, tocando no Encontro Internacional de Harmônicas, evento que
eu produzo e já está na quinta edição. É um dos maiores
festivais dedicados à gaita em todo mundo e acontece no Sesc
Pompéia.
Nessa
época você já tocava com o Blues Etílicos?
Pois
é. No final de 85, eu fiquei com vontade de montar uma banda de
blues. Eram pouquíssimas bandas de blues em atuação,
O rock brasileiro estava ressurgindo, e em 86 eu chamei o meu
amigo Cláudio Bedran pra montar uma banda de blues. A gente entrou
em contato com um guitarrista que tinha um estúdio de garagem. Era o Otávio Rocha. Então a gente
começou a ensaiar nessa época, no iníco de 86, e começou a tocar
em alguns bares no Rio...
O
Otávio tocava bateria, não?
Não,
o Otávio começou tocando guitarra, ele tocou bateria numa época
na qual o baterista da gente, que era um suíço, resolveu voltar
pra Suíça. E aí, pra não parar de tocar num bar que a gente
tocava sempre toda sexta e sábado, ele assumiu a bateria.
No
começo da banda era você quem cantava?
Isso,
no começo era eu quem cantava. Mas já no início de 87 entraram na
banda o Greg, que passou a cantar a maior parte das músicas, e o Gil
Eduardo, que assumiu a bateria. Eles entraram e
nessa mesma época nós gravamos o nosso primeiro LP, independente.
Logo depois da gravação do LP e de seu lançamento, eu fui para os
Estados Unidos.
Essa
era a época de ouro da rádio Fluminense (“A Maldita”), do
Circo Voador...
Exatamente.
A gente começou a tocar no Circo Voador abrindo shows pro Barão
Vermelho, pro Celso Blues Bloy... Até que em 88, 89, a gente começou
a fazer shows no Circo já anunciando como Blues Etílicos, tendo
outras bandas abrindo pra gente.
Sempre
foi Blues Etílicos o nome da banda?
Sempre
foi. Desde 86. E completa 20 anos ano que vem. (a entrevista foi realizada em dezembro de 2005)
Vocês
são da primeira geração do Blues Brasileiro, não?
Eu
diria que a gente é a primeira banda de blues brasileira a ter uma
carreira regular. Existiam até outras bandas, mas elas
faziam shows esporádicos, e não lançavam LPs. Algumas conseguiram
lançar um LP independente, mas depois sumiram... Quer dizer, não
tinha uma regularidade, até porque não existia um mercado pra isso
no Brasil. E o Blues Etílicos foi a primeira banda a conseguir ter
uma continuidade.
Conseguiram
até entrar pra uma gravadora grande, a Eldorado, não?
Exatamente.
A Eldorado na época era uma gravadora até forte, com uma estrutura
boa, mais de trinta funcionários, cinco assessores de imprensa. Era
uma gravadora de porte médio, respeitada no mercado. Foram bons
anos da gravadora, entre 89 e 95 mais ou menos.
Agora a Eldorado está ressurgindo graças ao Murilo Pontes e
estamos bastante otimistas.
Nessa
época você começou a tocar também com outros músicos, a fazer
participações especiais aqui e ali...
É,
nessa época eu comecei a gravar. As primeiras gravações
profissionais em discos de outros artistas foram com o Almir Sater e
com o Léo Jaime, que faziam muito sucesso naquela época, e por aí
veio um monte de gente.
Você
gravou até com o Paulo Ricardo, não?
Gravei
participações em três LPs do Paulo Ricardo.
Participei também do show dele no Rock in Rio II.
De
onde surgiram esses convites pra essas gravações de artistas que não
eram de blues? Eles procuravam uma gaita blues, ou simplesmente uma
gaita?
Na época a gente começou a se corresponder com outros músicos,
a se relacionar com outros músicos. O nosso som já rolava na rádio
fluminense, então já existia uma curiosidade: “Pô, estranho,
essa gaita é diferente...é um som mais rock’n’roll, e
tal”... e aí começou a aparecer convites. Eu conheci outros músicos,
que fizeram indicações... E quando você começa a gravar com um,
grava com outro. E praticamente não tinha ninguém fazendo esse
estilo de gaita, tocando gaita diatônica. Então foi até fácil
pra mim. Foi rápido pra eu ser reconhecido. Meu mercado de trabalho
se ampliou bastante naquela época.
E
em qual momento você começou a pender pro Jazz?
Eu
sempre gostei de jazz. Sempre fui ouvinte de jazz, colecionador
aficcionado por jazz. Mas não sou um músico de jazz. Eu deixo que
o jazz influencie a minha maneira de tocar,
o meu fraseado... Eu gosto muito do blues “jazzístico”.
De
onde você tira essa inspiração “jazzística” pro seu
fraseado? Do saxofone, do piano?
Ah!
Eu gosto muito de saxofone! Do John Coltrane...tem muita gente boa.
O pessoal do saxofone me influenciou bastante. O saxofone de jazz em
geral.
O
seu primeiro disco solo foi o “Little Blues”, não? Nele eu já
percebo que você dá uma guinada pro lado jazzístico...
Isso,
foi o “Little Blues” o meu primeiro disco solo. Eu gravei em 95.
Na verdade, é um disco em que eu pude tocar com músicos que
conheciam a linguagem do jazz e a gente gravou algumas coisas assim,
flertando com o jazz. Um jazz mais simples, mais melódico, um jazz
menos complexo, um tipo de jazz que me agrada mais.
Internacionalmente,
quais são os gaitistas que te chamam a atenção tocando jazz?
Eu
te citei o Howard Levy, que na gaita diatônica é o melhor do
mundo. Um gênio. Mas na gaita cromática tem vários gaitistas
excelentes, como Toots Thielemans e Mike Turk. Aqui no Brasil, o Maurício Einhorn é um nome a se
destacar.
Atualmente
quem mais te influencia a nível de gaita?
No
blues contemporâneo é o Kim Wilson, do “Fabulous Thunderbirds”.
Ele é um nome muito forte. E eu continuo ouvindo os tradicionais,
os gaitistas “da antiga”. Little Walter, George Smith e Big
Walter Horton são os
meus prediletos. Também gosto
muito do Sonny Boy Willianson, mas escuto mais e me influencio mais
pelo George Smith, pelo Little Walter e pelo recém falecido William
Clarke.
Vamos
falar um pouco sobre o teu timbre de gaita. Ao meu ver é um timbre
mais agressivo, quase como uma guitarra elétrica. E cá entre nós,
me parece ter influenciado uma boa parte dos gaitistas no Brasil. Eu
até me surpreendo quando vejo alguém tocando com um timbre
diferente hoje em dia...
Muita
gente começou a acreditar na gaita dentro de uma banda de rock ou
de blues, aqui no Brasil, um pouco por influência minha. E os meus
primeiros discos influenciaram muita gente. Mas o meu estilo foi
mudando daquele tempo pra cá.
Hoje em dia talvez eu não tenha nenhum timbre com tanto
overdrive quanto eu tinha nos primeiros discos do Blues Etílicos.
Hoje em dia eu tenho um som mais encorpado, mais gordo, mais
redondo, um pouco mais grave, e menos distorcido.
No
começo você se influenciou por alguma coisa, ou teve alguma idéia
pra construir esse timbre mais “overdrive”, mais saturado?
A
idéia inicial era você ligar em um amplificador de guitarra e
buscar um pouquinho de distorção, de “sustain”, os efeitos que
a guitarra tem. Eu sempre curti muito guitarra. Eu sempre ouvi
bastante guitarra. Foi uma coisa que me influenciou bastante. Mas
com o passar do tempo, esse timbre foi ficando mais limpo. No meu último
disco, o meu timbre já está um pouco mais limpo. E o estilo que eu
toco hoje em dia pede um timbre ainda mais limpo. É som de
amplificador ainda,
mas bem menos distorcido.
Você
diria que a sua influência maior, no começo, era o rock?
Eu
não diria que a minha influência maior era o rock, mas todo mundo
da nossa época ouvia o rock. E o rock tinha uma cara diferente, nós
estamos falando de vinte anos atrás. Mas eu sempre fui um ouvinte
eclético e um músico eclético também. Eu gosto... quer dizer...
adoro música brasileira, sempre ouvi música brasileira na minha
casa. Gosto de jazz, tenho um contato desde pequeno com o jazz. Então,
na verdade, eu não era fanático por nenhum estilo, eu gostava de vários
estilos musicais. Quem é da minha geração sabe que todo mundo
ouvia de Chico Buarque a Led Zeppelin. Fui ouvindo Deep Purple,
depois Johnny Winter, até chegar no Muddy Waters, Eric Clapton, até
começar a pesquisar quem esses caras ouviam, e acabar chegando no
blues.
O
teu mais recente trabalho é uma coletânea...
Isso,
é uma coletânea. Mas tem duas músicas inéditas: uma versão de
“Dente de Ouro”, com o Blues Etílicos, e uma instrumental
chamada “Navegaita”. É um disco bem variado, ele tem essa coisa
do blues, mas chega um ponto dele no qual ele entra muito na coisa
do nordeste brasileiro. Eu gravei um “repente”
(estilo de música
nordestina) com o Sebastião da Silva, que conta a história
da vida de Robert Johnson. A letra é do Bráulio Tavares. Eu acho que é uma das coisa mais ricas
que eu já gravei. Tem uma leitura de música brasileira, feita no
Brasil, com uma dose forte de blues.
No
CD tem isso, e tem blues também. É um CD eclético. É mais um
panorama da minha gaita em diferentes estilos musicais. Então, não
é um disco de blues tradicional, ou um disco de rock, ou um disco
de música brasileira. É uma amostragem dos vários estilos que eu
toco.
É
meio que a tua história...
É,
pelo menos a minha história gravada em CD.
Você
também está lançando uma vídeo-aula em DVD. É sua primeira vídeo-aula?
Eu
lancei a primeira vídeo-aula de gaita feita no Brasil, em 95.
Agora, dez anos depois, eu lancei essa nova vídeo-aula em DVD. A
primeira ainda está em catálogo.
Ambas estão lá no www.aprendamusica.com.br
Além
disso, você tem algum outro projeto no momento?
O
meu projeto, no momento, é gravar um CD novo com a Prado Blues Band,
que é uma banda excelente de São Paulo, que toca um estilo que
nenhuma outra banda do Brasil toca. Ela toca um “jump blues” da
melhor qualidade. Uma mistura de blues com swing e jazz. A gente está
compondo um repertório junto, muito bacana, e vamos regravar uns clássicos
bem legais. Já fizemos alguns shows em São Paulo, no Bourbon
Street, e estaremos gravando no início de fevereiro. Em abril, esse
disco já estará nas lojas.
Um
outro projeto que eu pretendo concretizar ainda esse ano é lançar
um CD que vai se chamar “Roda Mundo”. É um CD que foi produzido
metade no Rio, metade em Pernambuco, e é um CD de “world music”.
É Música brasileira com ritmos afro-brasileiros de Pernambuco. Tem
capoeira, maculelê,
maracatu, samba de roda... e inclusive o samba de roda que está no
disco é uma parceria com o Pedro Luís (da
banda “Pedro Luís e a Parede”), que ganhou o terceiro
lugar no festival da TV cultura. A música se chama “Girando na
Renda”. É um CD de música brasileira, mas como é uma música
brasileira mais conceitual, ele se encaixa bem nessa categoria de
“world music”. É um trabalho que eu me orgulho muito de ter
feito e estou agora só buscando caminhos pra lançar. Pra mim, lançar
um disco de blues é muito mais fácil. Eu já tenho o caminho. Mas,
nesse caso, eu ainda estou adquirindo experiência, buscando os
caminhos.
Além
disso, o Blues Etílicos pretende gravar mais um CD ao vivo em 2006,
com regravações de coisas mais antigas e com inéditas também. A
banda comemora 20 anos de carreira em 2006, e a gente espera estar
gravando esse disco em abril. É mais uma forma de homenagear os
nossos fãs. Por isso resolvemos fazer ao vivo, como foi feito quando nós
completamos 15 anos de banda.
Uma
pergunta que acredito ser uma grande preocupação atual de muitos
amantes do gênero: O que você acha que falta pro blues brasileiro
alcançar o status que
merecia?
Bom,
o que eu acho curioso, que acontece aqui no Brasil, é... Por
exemplo: o Cidade Negra é uma banda que traduziu o reggae pro
brasil. E é considerada uma banda de música brasileira. O marcelo
D2 misturou Hip Hop com música brasileira e também é considerado
música brasileira...
Inclusive
ganhou a última prêmiação da MTV como melhor clip de música
brasileira...
É,
exatamente. Ele é considerado MPB, mas usa um colar, uma calça,
todo o visual de um “rapper” norte-americano. Então você tem aí
o reggae, que o Gilberto Gil também já usou bastante. O hip-hop. O
rock, que tem o Cazuza, o Legião Urbana, o Barão Vermelho... e
também são considerados grupos de música brasileira.
Mas
existe um equívoco de que, sempre que se fala em blues, é como se
falasse da música de uma ilha deserta remota no sul do pacífico...
Como se fosse um som alienígena. E esquecem que Cazuza, Renato
Russo, Alceu Valença, Zeca Baleiro, Cássia Eller, Chico Buarque de
Holanda... Todos eles compuseram blues.
Quer
dizer, o brasileiro tem capacidade de digerir músicas e ritmos de
outros países... sempre foi assim: A bossa nova, que teve a influência
do jazz. A música latina nos anos 50. O bolero, que veio do
Caribe... A gente sempre teve essa capacidade de fusão, de misturar
ritmos, de criar um som próprio influenciado por música que vinha
de “além-mar”, vamos dizer assim. E o que acontece no Brasil,
é que o blues, equivocadamente, ainda é considerada uma música
alienígena.
Então
o Marcelo D2 faz música brasileira, o grupo que toca rock faz música
brasileira, o grupo que toca reggae faz música brasileira, e o
Blues Etílicos, que basicamente faz música brasileira, é taxado
como uma banda que toca música americana.
Há
pouco eu ia te cortar pra perguntar se não seria por causa dos
puristas que querem só fazer blues em inglês... mas o próprio
Blues Etílicos faz música em português também...
É,
“A Cor do Universo” é
um CD que não tem nenhum blues e é praticamente todo em português!
Entendo
muito bem quem prefira blues original em inglês, mas também
valorizo quem faz, no Brasil, música própria com elementos de
blues, seja em que língua for. Triste mesmo, no blues, é quando o
cantor força a voz pra parecer "negão" e canta letras
pobres com problemas de sotaque. Letras próprias começando com
"Woke up this morning".. e outros clichês.
Mas
eu acho que tem também uma questão mercadológica. É como se
todos os artistas de blues fossem a mesma coisa. Não tem mais
distinção, viramos todos genéricos! É um grande equívoco, de
alguns contratantes de shows, achar que todo mundo é igual e que
tanto faz, desde que carregue o nome "blues".
Em
geral, esse tipo de contratante prioriza a questão do cachê. Se
tem fulano que toca blues e cobra "x", e tem outro cara
que toca blues e cobra menos, o contratante prefere o mais barato.
"É tudo blues mesmo...é tudo a mesma coisa..." Então
acabam contratando pelo preço do cachê, e não pela qualidade do
trabalho. Depois, quando o evento não dá certo, eles ainda teimam
em dizer que é o blues que não tem público.
Isso
é um problema que o blues vive hoje no Brasil. Acho que vai levar
alguns anos pra separar o joio do trigo. As bandas que tiverem um
trabalho mais consistente vão se consolidar, e as que não, vão
desaparecer. Acho que ainda vai levar pelo menos uns cinco anos pra
se ter uma noção do que é blues brasileiro.
Discografia:
-
“Flávio Guimarães" (Flávio Guimarães - Eldorado) - 2005
-
“Navegaita” (Flávio Guimarães - Eldorado) - 2003
-
“Cor do Universo” - (Blues Etílicos) - 2003
-
“Águas Barrentas-ao Vivo” (Blues Etílicos - Eldorado) -
2001
-
“On The Loose” - (Flávio Guimarães - Eldorado) - 2000
-
“The Best of Blues Etílicos” (Coletânea da Eldorado) -
1998
-
“Dente de Ouro” (Blues Etílicos - Abril Music) - 1996
-
“Little
Blues” (Flavio Guimarães -Eldorado) -
1995
-
“Salamandra” (Blues Etílicos - Natasha) - 1994
-
“IV” (Blues Etílicos - Eldorado) - 1991
-
“San Ho Zay” (Blues Etílicos - Eldorado) - 1990
-
“Agua Mineral” (Blues Etílicos - Eldorado) - 1989
-
“Blues Etílicos”
(GHR/ Velas) - 1987
Confira
também as entrevistas anteriores:
Nuno
Mindelis (dezembro de 2005)
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