Jefferson Gonçalves: Música sem preconceitos

Por Edson Travassos

    

 

Reconhecido e elogiado internacionalmente, Jefferson Golçalves é um gaitista diferente. A começar pelo timbre de sua gaita, que é limpo, brilhante e suave, ao contrário da grande maioria dos gaitistas brasileiros, que buscam um timbre mais cheio, distorcido e agressivo, simulando uma guitarra elétrica. Isso já torna fácil a tarefa de distingui-lo dos demais. 

Outra característica sua é a sua preocupação com a musicalidade do que toca, em detrimento das "acrobacias técnicas" que são uma constante atualmente no meio. Pode-se mesmo ouvir uma música sua praticamente sem ouvir nada de gaita. Seu virtuosismo no instrumento acaba sendo coroado pela sua maturidade como músico.

Já gravou com músicos respeitados de blues e de vários outros estilos, e chegou a desenvolver uma linha especial de gaitas diatônicas (que leva seu nome) em parceria com a fabricante "Hering Harmônicas", do sul do País.

Foi "sócio-fundador" da banda carioca "Baseado em Blues", com a qual gravou três CDs, e dela partiu para novos horizontes e patamares musicais em sua carreira, gravando com Big Joe Manfra o premiado CD acústico "Blues Etc" e, posteriormente, seu esperado primeiro disco solo, de nome "Gréia", onde mostra todas as suas influências musicais, que vão desde o blues até o baião, passando pelo folk, country e rock, dentre outras.

Apesar de ter iniciado sua carreira artística em uma banda de blues, e tocar um instrumento típico do gênero, reluta em se considerar um músico de blues, preferindo dizer que toca "música". Assim, sem rótulos nem preconceitos...

 

 

Quando você começou a tocar? Começou tocando gaita mesmo?

 

Foi, sempre curti o som da gaita. Escutava alguns amigos que tocavam e ficava vidrado. Sempre curti música folk americana e queria tocar como Bob Dylan.

 

O que te levou a escolher a gaita como instrumento?

 

Eu andava na época com uma galera que tocava violão e,  sempre que saíamos para acampar, rolava um som. Eu ficava só olhando... Então resolvi comprar uma gaita e ter aulas para poder participar. Mas o mais importante mesmo foi o som da gaita. Sempre curti instrumento de sopro, e a gaita em especial. Nessa época eu escutava muito Jethro Tull, e em algumas músicas rolava uma gaita. Por isso eu sempre tinha essas músicas como preferidas.

 

Quais eram as suas influências na época? O que você escutava, além de Jethro Tull?

 

Bob Dylan, Stones, Led Zeppelin... Acho que, como a maioria, eu curtia rock. E, sempre que escutava alguma gaita nas gravações desses artistas, eu ia dar uma olhada na ficha técnica e via sempre um nome diferente, como por exemplo  Willie Dixon. Resolvi então procurar LPs desses caras e descobri um modo de tocar gaita muito diferente do que estava escutando. Isso virou minha cabeça e o primeiro que fez isso foi Little Walter. Depois foi Sonny Terry. Esses dois são minhas influências até hoje.

 

Antes de ser músico profissional, você era bancário, não? O Amir Klink também era bancário e disse que resolveu largar o banco e virar velejador profissional quando percebeu que ele ia para o banheiro do banco ficar lá, sentado no vaso, matando o tempo, esperando pra ir embora. O que te levou a largar o banco e virar músico profissional?

 

Na época que entrei no banco, eu tinha 18 anos. Pegava onda e andava de skate. Tinha como filosofia viajar e curtir o máximo a minha vida. E para isso, eu precisava de grana. Rolou o "trampo" no banco e eu fui. Era mole. De 8:00 da manhã até as 14:00 da tarde. Tinha dia que eu saia direto do banco para a praia.

Quando resolvi aprender a tocar gaita, a grana do banco me ajudou muito a custear isso. Primeiro tive aulas de cromática, pois não sabia qual a diferença de uma gaita para a outra. Aprendi valsas, choros, MPB, etc. Mas na verdade não era aquilo o que eu queria.

Um dia, lendo jornal, descobri um curso de gaita com o Flávio Guimarães. Fui para me inscrever, e já estava lotado. Mas esperei e falei com o Flávio sobre as aulas, e ele me disse que podia me dar aulas em um outro local. Marcamos e dei início às aulas. Como eu já tocava cromática, muita coisa eu já sabia. O Flávio me passou o "pulo do gato", como realmente se toca gaita diatônica. Como se faz os bends, etc. Isso me ajudou muito.

Outra pessoa que me ajudou foi o Zé da gaita. Nessa época eu era meio que "roadie" dele. Eu ia em todos os shows e dava canjas. Foi com o Zé que eu conheci Sonny Terry e dali eu mudei novamente a minha idéia de tocar gaita.

 

Quando e como foi a formação do Baseado em Blues? Qual era a proposta da banda?

 

O primeiro show da banda foi em 1992, abrindo pro Zé da gaita, no Iate CLube de Muriqui. Nossa proposta era tocar blues e rock e curtir. Mais nada! (risos)

Depois desse show eu chutei o balde, saí do banco, parei de estudar e encarei a música como profissão. Estudei por métodos e entrei em alguns cursos de música para poder entender o que eu já fazia "de ouvido". Comecei a dar aulas e em pouco tempo estava me sustentando de música.

Nessa época o surf e o skate já estavam descartados da minha vida.

 

Como rolou o selo "Velas"? O que isso representou para vocês?

 

Quem fez todo o contato na época foi um amigo que ajudava na produção. O nome dele é Boanerges Lopes. Ele quem fez toda a negociação.

No início seríamos distribuídos pela Velas e faríamos parte de um selo que faliu antes mesmo de começar. Mas o Lopes, mesmo assim, conseguiu colocar a gente na Velas. Foi uma boa época. Fizemos shows, programas de TV, rádio, e nosso CD era encontrado em todas as lojas.

Na verdade, a Velas pintou no meio de toda a história. Nós íamos lançar independentes. A primeira opção foi com o Daniel Cheese (Dono de um estúdio de gravação na Tijuca), que comprou a idéia de gravar de graça e ajudar a gente a colocar o trabalho na rua. Mas pintou a Velas na parada. Conseguimos pagar o Cheese e ter uma boa distribuição.

 

Você gravou com Big Joe Manfra um CD acústico muito badalado, o "Blues Etc.". Qual foi o objetivo desse projeto?

 

Esse CD foi um projeto que sempre tive vontade de fazer. Sempre curti som acústico, e queria gravar um CD nesses moldes. Em 1998 fui tocar em Michigan (USA), e vi muitos shows de trios e duos acústicos. O próprio Mad Cat faz isso e foi ele quem disse que isso era uma maneira dele baratear o custo para o contratante e conseguir trabalhar, ganhar bem e fazer um trabalho de alto nível.

Voltei para o Brasil, falei com o Manfra e resolvemos montar um duo (eu e ele) e sempre convidar alguém para participar do show. Fizemos isso durante 3 ou 4 meses em um bar em botafogo. Lá passaram como convidados todos os cantores que gravaram o CD. E foi lá que fechamos o repertório para gravar.

Foi muito fácil gravar esse CD, pois já sabíamos o que queríamos, e o Daniel Cheese (mais uma vez) tirou um som de violão e gaita dando um qualidade absurda no CD.

Conquistamos muitas coisas com ele. Fomos indicados ao prêmio Caras de música (hoje prêmio TIM), como melhor cd de língua estrangeira, e tocamos em quase todo o Brasil.

 

Quando você gravou o seu primeiro disco solo? Qual era  a intenção do disco?

 

Sempre tive vontade de gravar um disco meu, com composições diferentes que não entravam no contexto do "Baseado em Blues" e nem do "Blues Etc". Não tinha feito antes por motivo de agenda e de falta de músicos que curtiam o mesmo som que eu. Quando conheci Kleber Dias, fiz o convite e ele aceitou. Suas influências são bem próximas das minhas. Ele curte de tudo e tem uma bagagem musical muito boa. Foi fácil passar minhas idéias e compor com ele.

 Começamos a fazer alguns shows até achar o time certo, e quando rolava um tempo na agenda, eu ia gravar. Isso começou em 2002.

Outra pessoa que ajudou muito foi o Giovanni Papaléo. Ele me apresentou muita coisa de música nordestina e me apresentou vários músicos da cena pernambucana.

As primeiras gravações foram feitas em Recife e foi Giovanni quem gravou a bateria para duas músicas. O mais engraçado nisso foi que ele gravou sozinho no estúdio. Gravamos a bateria e depois colocamos baixo e guitarra. Só então fizemos a linha melódica e a letra.

A proposta desse disco era a de mostrar todas as minhas influências e, principalmente, gravar com pessoas que conheci na estrada e que hoje são meus amigos. Não fiz isso pensando apenas na carreira solo. Mas como a "Blues Etc" estava parada e o "Baseado" acabou, tive que colocar esse trabalho na praça.

Para minha surpresa, ele foi muito bem aceito fora do Brasil. Recebi vários elogios e, principalmente aqui, conquistei novos espaços de trabalho. Até hoje eu fico feliz em participar de eventos de música nordestina em cidades que nunca imaginaria tocar antes.

A aceitação é ótima. Sempre vendo meus CDs, e quando acaba o show já estou com convite para outra apresentação em outra cidade. Isso é muito bom.

 

O seu disco, "Gréia", tem muitas influências de música nordestina. Você considera ele um disco de blues?

 

Não o considero um disco de blues, até porque isso é o que menos tem nele. Considero-o um disco de música. Sem rótulo, sem comprometimento com estilo. Simplesmente um CD que você coloca no seu aparelho e curte música.

Não fiz um CD para gaitista. Fiz um CD para se escutar em casa, no carro, sem essa de mostrar virtuosismo. Meu comprometimento é com a música, não com o blues. Gosto de blues, ouço blues, mas também escuto e gosto de outras coisas. E por que não gravar isso? Por que tenho que me rotular e tocar blues até o resto da minha vida?

Nesse disco tem música nordestina, blues, folk, funk, country, etc. Simplesmente é um disco de música de estilos variados. Agora, não sei o nome que dão a isso... Eu não sei. (risos)

Nos meus shows fico muito feliz quando vejo um casal dançando e curtindo o show, sem se preocupar se estou ou não tocando blues. Simplesmente eles estão curtindo. E por isso que algumas portas se abriram para mim. Essa mistura agrada do cara que mora lá em Assaré (CE) ao cara que mora aqui em Copacabana (RJ). Eles curtem e não estão preocupados se eu estou tocando blues ou forró.

 

Como você vê a cena blues atual?

 

Muito boa. Tem surgido várias bandas novas. E o melhor, cada um fazendo um som diferente. No momento, a "Prado Blues" é a banda que mais chama a minha atenção.

 

Qual é, para você, a realidade brasileira de um músico de blues?

 

É a mesma que para os músicos de blues americanos: Tocar, fazer shows, gravar discos e viver do que gosta, sem pretensões de aparecer no Faustão ou cair nas graças da mídia.

 

Existe mercado para esse tipo de trabalho no Brasil? Como é esse mercado?

 

Existe sim. A prova disso sou eu e tantos outros que tocam blues e música instrumental no Brasil. Com a música instrumental é a mesma coisa. Dá pra viver de música de qualidade sim. O que precisa é haver união entre os músicos, e principalmente a valorização dos cachês. Tem muita gente tocando por mixaria, e isso atrapalha quem vive exclusivamente de música.

 

Você tem 3 vídeo-aulas de gaita no mercado. Como é a aceitação delas?

 

É ótima. Tenho viajado muito nesses últimos anos. E às vezes vou para cidades minúsculas, passo nas lojas de música e vejo lá a minha vídeo aula. Isso é muito bom. Estou me programando para gravar mais um volume para 2006.

 

Quando você começou seus estudos, havia a oferta de material didático que existe hoje?

 

Não.

 

Você acha que hoje os novos gaitistas tem melhores condições de aprendizado que antes?

 

Com certeza. Você já experimentou digitar "gaita" ou "harmônica" no "google"? Veja a quantidade de sites relacionados a isso.

 

Existem gaitistas novos que você considere promissores?

 

Existem vários. Cada dia descubro um maluco fazendo um som muito bom com a gaita.  (risos) 

Vou citar alguns, pois se fosse falar de todos a lista seria imensa: Rodrigo Eberienos, Pablo Fagundes, Gabriel Grossi, Daniel Granado, Ivan Marcio, David Tanganelli, Otávio Castro e Júlio Rego, entre outros.

 

Um grande mérito que eu vejo em seu trabalho é que você, apesar de dominar muito bem a técnica do instrumento,  não tem a preocupação, como outros gaitistas, de mostrar, a cada instante, que sabe tocar. Parece haver um comprometimento maior com a música do que com o “ego”...

 

Não vejo pelo lado do ego, e sim pelo lado da música. 

Por que eu vou colocar gaita o tempo todo em uma música, se ela não pede isso? 

Me preocupo com a música como um todo. Quero escutar todos os detalhes. Uma caixa na hora que tem que aparecer, uma virada de batera na hora certa, uma frase de guitarra... e assim sucessivamente.

Isso eu deixo bem claro no meu CD. Tem hora que eu nem toco... Silêncio também é música!  Se não fosse, não teríamos sinais de pausa...

Minha preocupação é com o todo, e não com o meu instrumento.

 

Atualmente, quais são as suas influências?

 

Tenho escutado muita coisa com percussão. Sempre tiro idéias rítmicas para tocar na gaita. Escuto também muita coisa de banda de "pífanos". Na gaita, estou escutando muita coisa de cromática.

 

Qual é a linha que você pretende seguir, musicalmente, daqui para frente?

 

Sei lá. O que der na telha. Quem sabe no próximo trabalho eu não faça um CD de "Blues Raiz"?

Não quero me rotular. Quero fazer o que eu gosto. Minha linha é só uma: "Tocar o que eu gosto, independente de estilo".

 

Quais são os seus projetos para esse ano?

 

Lançar o meu CD ao vivo e cair na estrada mais uma vez para divulgar esse trabalho.

 

 

 

 

Discografia:

 

-         “Baseado em Blues" -  Baseado em Blues  (Velas) - 1996

-         “Madrugada blues” - Baseado em Blues  (Velas) - 1997

-         “Um acústico baseado em blues - ao vivo” - Baseado em Blues  (Blues Time) - 2000

-         “Blues Etc.”  - Blues Etc.  (Blues Time) - 2003

-         “Gréia” - Jefferson Gonçalves (Blues Time) - 2004

 

 

 

Confira também as entrevistas anteriores:

 

  Nuno Mindelis (dezembro de 2005)

  Flávio Guimarães (janeiro de 2006)

  Solon Fishbone (fevereiro de 2006)

 

 

Jefferson Gonçalves e sua linha "Signature" de gaitas

 

Jefferson Gonçalves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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