Fernando Noronha & Black Soul: Blues-Rock de alma negra

Por Edson Travassos

    

 

Nesses tempos modernos, onde "tudo o que é sólido se desmancha no ar", poucos músicos empunham uma guitarra com tanta emoção e competência como esse jovem guitarrista gaúcho. Seus "bends" e "vibratos" são feitos com a maestria de um "bluesman da antiga", com paciência e paixão, sem a pressa e a ansiedade juvenil frutos da insegurança e falta de experiência dos marinheiros de primeira viagem. 

Sua guitarra surrada de quase meio século de idade parece ter lhe ensinado como fazê-la rir, chorar, gemer ou gritar (Como fazer bem feito!). 

Prematuramente ele alcançou o amadurecimento musical, usando a guitarra como voz de sua alma negra, ao invés de trilhar o caminho dos "virtuoses velocistas"  agoniados de plantão.

Seguidor do estilo "SRV" de blues texano, conquistou público em vários países da América Latina, do Canadá e da Europa, dividindo palco com grandes nomes do blues internacional. Foi inclusive elogiado por B. B. King - o  próprio "Blues" em pessoa.

Seus discos, que costumam contar com a produção de grandes nomes do blues, como Chris Duarte, Ron Levy e Solon Fishbone, seguem uma linha sempre ascendente de evolução. É o que se pode constatar da audição de seu último CD - "Bring it" -  onde ele e sua excelente banda "Black Soul" seguem um novo caminho, já iniciado no CD anterior, misturando o velho blues com elementos de diversos estilos musicais, como o rock, o funk, o soul e até o pop.

Por estar atualmente em turnê pela Europa, tivemos esse pequeno bate-papo pela internet.

 

Noronha, com que idade você começou a tocar? Começou tocando blues?

 

Eu tive um mês de aula de violão com 6 anos e parei. Mas deu pra aprender os acordes básicos. Depois, aos 15, eu recomecei e não parei mais. Comecei tocando Rock'n'Roll.

 

O que te levou a tocar blues?

 

Um cara chamado Stevie Ray Vaughan. Foi por causa dele que eu me interessei pelo estilo, pois eu queria saber quem eram os caras que ele escutava. Foi quando conheci os mestres, como Albert King, Freddy King, Muddy Waters, etc.

 

 Quais foram as suas influências no começo?

 

Eu comecei ouvindo bandas de rock como Lynyrd Skynyrd, Dire Straits, Allman Brothers, Rory Galhagher, Steve Miller , Wishbone Ash, etc.

 

Quando começou a sua carreira de guitarrista profissional?

 

Em 96, quando eu lancei "Swamp Blues", o nosso primeiro cd.

 

Como aconteceu a gravação do seu primeiro disco?

 

Foi independente e gravamos em Porto Alegre.

 

 Como teve início a sua carreira no exterior?

 

Quando fomos tocar no Chile em 99. Depois disso as portas foram se abrindo, fomos para Europa pela primeira vez em 2000. E desde então temos voltado todos os anos. Já passamos também pela Argentina e pelo Canadá. A internet teve papel crucial nesse processo.

 

Os seus dois últimos discos foram produzidos pelo Chris Duarte, excelente guitarrista texano. Como rolou isso?

 

Via internet. Entramos em contato com ele, mandamos uma demo e ele curtiu. No disco "Changes" ele trabalhou tão bem que resolvemos trazer ele para esse disco também.

 

Eles mostram arranjos mais ricos e elaborados e uma abordagem mais diversificada, saindo do blues texano que dava o tom a seus discos anteriores. O que te levou a isso?

 

Acho que foi uma coisa natural. Eu sempre gostei muito de rock'n'rol, então eu estou deixando essas influências se misturarem com o blues que nós já fazíamos. O resultado está no disco "Bring it".

 

O que representa Stevie Ray Vaughan para você? E para o blues em geral?

 

Para mim ele é um dos meus heróis preferidos juntamente com Jimi Hendrix , Albert King e Rory Galhagher. Para o blues em geral ele foi o cara que trouxe toda uma nova geração a se interessar pelo estilo.

 

O que é música para você?

 

Musica pra mim é emoção, comunicação e uma forma de extravasar sentimentos.

 

Quando você compõe, no que você pensa? O que você tenta passar? Qual o papel da “Black Soul” neste processo?

 

O papel da Black Soul é importantíssimo.Eu chego no ensaio com uma idéia, e então a desenvolvemos em grupo. Trabalhamos a harmonia e a  estrutura. Depois eu penso na letra.

 

Você já dividiu o palco com nomes importantes do blues mundial e até com lendas ainda vivas do blues. Como é que você se sente a respeito disso?

 

Me sinto privilegiado por ter tido estas oportunidades e acho que foram muito importantes para o desenvolvimento e amadurecimento do nosso trabalho.

 

Você costuma realizar turnês anuais pela Europa. Como é a aceitação no exterior de músicos brasileiros que tocam blues? Em algum país a aceitação é especialmente melhor ou pior?

 

A aceitação é ótima em todos países por onde passamos. Porém, na Bélgica, Holanda e Alemanha já temos um público cativo que vai a vários shows em uma mesma turnê.

 

Como você vê o cenário blues atual no Brasil e no exterior?

 

Vejo com otimismo. Mesmo com todas as dificuldades que uma banda de blues enfrenta. Isso porque acredito que o publico que gosta de blues é muito fiel e não vai desaparecer. Fora isso, há cada vez mais bandas jovens fazendo um belo trabalho na cena Brasileira. No exterior a diferença é que existe  muito mais eventos e investimentos.

 

Quais são os Estados brasileiros onde existem os melhores públicos de blues?

 

O publico no Brasil em geral é quente. Já tocamos em vários Estados e sempre fomos muito bem recebidos.

 

Alguns críticos consideram o blues um estilo “morto”. O que você acha disso?

 

Acho que estas pessoas não têm alma.

 

As grandes novas promessas do blues americano, tais como Kenny Wayne Shepherd, Jonny Lang e o próprio Chris Duarte enveredaram por outras praias, deixando o blues meio de lado. Até alguns "bluesmen" da geração anterior, como Robert Cray, tomaram outros rumos. Você se considera mais um exemplo disso? O que você pensa sobre isso?

 

Acho que isso é muito pessoal. A minha música evolui de acordo com o que sinto e escuto. Sendo assim, não tenho preconceitos em misturar o blues com novas influências.

 

Na sua opinião, o que ajuda e o que atrapalha o blues no Brasil?

 

O publico, as bandas e as revistas especializadas, como a Blues'n'Jazz, ajudam bastante.  Mas ainda faltam investimentos em eventos.

 

Atualmente, quais são as suas influências?

 

Atualmente o guitarrista que mais tem feito a minha cabeça é Billy Gibbons.

 

Quais são os seus projetos para esse ano?

 

Este ano vamos promover nosso disco novo no Brasil, Europa e Canadá. Existe a previsão de um Clipe e um DVD. Fora isso, já estamos trabalhando nas músicas do próximo cd.

 

 

 

 

* Confira a crítica do CD "Bring it" (clique aqui)

 

 

 

Discografia:

 

-         Swamp Blues" -  Fernando Noronha & Black Soul  (Independente) - 1997

-         Heartfull Of Blues” - Fernando Noronha & Black Soul   (Independente) - 1998

-         Blues From Hell” - Fernando Noronha & Black Soul with Ron Levy  (Stop Records) - 2000

-         Live In Europe”  - Fernando Noronha & Black Soul    (Stop Records) - 2002

-         Changes” - Fernando Noronha & Black Soul  (Orbeat) - 2004

-         Bring it” - Fernando Noronha & Black Soul  (Unimar Music) - 2005/2006

 

 

 

Confira também as entrevistas anteriores:

 

  Jefferson Gonçalves (março de 2006)

  Solon Fishbone (fevereiro de 2006)

  Flávio Guimarães (janeiro de 2006)

  Nuno Mindelis (dezembro de 2005)

 

 

 

 

 

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