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Big
Joe Manfra - O grande divulgador do Blues no Brasil
Por
Edson Travassos
Completando
10 anos de carreira, Big Joe Manfra comemorou merecidamente suas
conquistas com a gravação do primeiro DVD de blues nacional da
história, intitulado Big Band Ao Vivo, lançado pelo selo Blues
Time Records, do qual é sócio-fundador.
Nestes
10 anos, Manfra tocou nos mais conceituados festivais de Blues e
Jazz, no Brasil e no exterior, ao lado de nomes como Rod Piazza
& The Might Flyers, Tommy Castro, Chicago Blues Ladies, Stanley
Jordan, Grant Green Jr, Norton Buffalo, Peter Madcat e Jamie Wood,
entre outros. E nestes 10 anos, Manfra se empenhou em divulgar ao
máximo o blues no Brasil, seja como músico, tocando de norte a sul
do país, inclusive acompanhando artistas internacionais em suas
turnês; ou seja como empresário, à frente de seu selo Blues
Time, que atualmente se consolidou como o maior selo de blues do
país, tendo já diversos títulos nacionais e internacionais em seu
catálogo, e uma ampla e bem organizada distribuição.
Manfra,
antes de mais nada, o que te levou a ser músico?
Sempre
tive fascínio por instrumentos musicais e desde cedo sempre gostei
de ouvir música. Meu pai adorava Elvis e meu primo tocava violão
desde cedo. Foi como tive contato com a música durante a infância
e a adolescência.
O
que me levou a ser músico profissional foi, além do amor que
sentia pela música, a constatação de que não conseguiria fazer
outra coisa na minha vida. Mesmo tendo condições de ter seguido
outras carreiras mais vantajosas em termos econômicos, acabei sendo
escolhido pela paixão. Quando tomei essa decisão, estava cursando
Engenharia na Universidade. Logo depois tranquei a matrícula.
Com
que idade você começou a tocar?
Comecei
meio tarde. Apesar do contato com o violão desde cedo, por intermédio
de meu primo, só aos 16 anos, após o primeiro Rock in Rio,
eu comprei uma guitarra Giannini Sonic e comecei a ter
aulas de violão clássico. Isso só durou 6 meses. O professor
largou a escola e eu, de clássico, só aprendi teoria musical,
continuando um bom tempo por conta própria até entrar na Musiarte.
Você
estudou na Musiarte, conceituada escola do Rio de Janeiro, e
depois no GIT (Guitar Institute of Tecnologie), escola
da Califórnia mundialmente conceituada. O que você aprendeu com
essa experiência? Como você compararia o que aprendeu no Brasil
com o que aprendeu nos EUA?
Foram
duas fases distintas, tanto de aprendizado quanto de vida. Na Musiarte,
me formei em Guitarra e Harmonia Funcional, o que abriu minha visão
em termos de música e onde tive um contato muito forte com o jazz.
Já gostava muito de blues, tocava em bandas de rock, mas ainda não
sabia em que direção seguir. No GIT, o meu negócio
foi tocar. Desde as 10:00 da manhã até as 10:00 da noite, eu
estava com a guitarra nas mãos. Seja em aulas, ou estudando. Foi
muita informação em apenas um ano e saí de lá querendo tocar
blues, pois foi isso que os americanos falaram que eu tocava melhor,
o que me impressionou muito. A Musiarte me deu a base teórica,
que foi fundamental para fazer o GIT, onde modelei meu
jeito de tocar guitarra, concentrando-me na parte prática.
Para
você, o blues se aprende na escola?
Não.
Na escola, um músico aumenta seu conhecimento técnico e sua
bagagem musical. Se ele vai usar isso para tocar blues ou qualquer
outro estilo, isso depende de cada um.
Antigamente,
o blues era passado através das gerações, por jovens que seguiam
os músicos estando ao redor deles aprendendo sua arte. Essa era a
escola deles, numa época em que o blues era puramente uma cultura.
Depois, vários músicos aprenderam "de ouvido" através
dos LPs, vide os ingleses. Atualmente, o estilo é ensinado em
escolas do mundo inteiro, não só nos EUA, e pode ser ouvido através
de um download na internet. Como a primeira
possibilidade de aprendizado é muito restrita hoje, a maioria
das pessoas vai ter contato com o blues através das mídias
modernas. Um sinal de que o blues jamais desaparecerá.
Qual
a importância da técnica e da teoria musical para tocar o blues?
A
teoria musical é somente um sistema para anotar a música no papel,
nada mais do que isso. Se o músico quiser ter acesso a uma grande
quantidade de material que é apresentado nesse formato para
aprendizado, será útil, mas não influencia no estilo de tocar.
Para mim, técnica é toda forma de se executar uma nota musical e
através disso demonstrar sua arte e sentimento. Quando B.B. King
está fazendo seu vibrato, ele está usando uma técnica para executá-lo
e passar sua emoção através dessa nota. Cada músico usa um tipo
de técnica para mostrar suas emoções, que aí variam de acordo
com a personalidade do músico. E isso é fundamental no blues: Mostrar
suas emoções.
O
que é o Blues para você? O que te levou a escolher esse estilo
para abraçar?
O
Blues é a possibilidade de repartir minhas emoções e um pouco da
minha personalidade com o público, uma troca de experiências,
através desse estilo musical maravilhoso. O que me levou a escolher
foi ver meu primeiro show de blues americano com John Lee Hooker e
querer descobrir porque aquele senhor de mais de 60 anos na época,
mesmo sentado em uma cadeira com sua guitarra no palco, concentrava
todas as atenções e gerava um sentimento fascinante ao seu redor.
Quais
foram as suas influências no Blues? E quais são agora?
T-Bone
Walker, BB King, Albert Collins, Stevie Ray Vaughan, Robben Ford,
Eric Clapton e Jimi Hendrix. Hoje em dia também ouço
guitarristas como Danny Gatton e Brian Setzer.
Você
utiliza uma guitarra modelo Signature de Stevie Ray Vaughan.
O que Stevie Ray
representa para você? E o que ele representa para o blues,
na sua opinião?
Essa
guitarra foi lançada pouco antes de eu chegar nos EUA. Experimentei
algumas antes de, por acaso, testar essa. No final do curso, quando
eu já tinha mudado a minha pegada, ela caiu como uma luva.
Quando ouvi Stevie Ray Vaughan, sabia que estava diante de um estilo
moderno de blues e de um timbre fantástico. Já ouvi muito e
aprendi bastante com seu estilo. Ele representa o último boom
de público que aconteceu no gênero, pois teve e tem até hoje uma
repercussão na mídia muito grande, levando o blues até pessoas
que nunca teriam essa chance de ouvir o gênero.
Você
fundou, junto ao gaitista Jefferson Gonçalves, um selo
especializado em blues no Brasil. Como isso aconteceu? O que te
levou a essa idéia? Como está indo o selo?
A
Blues Time Records foi fruto de nossas experiências na época, eu
lançando meu primeiro CD de modo independente e ele tendo feito uma
viagem pelos EUA. Após vários papos decidimos fundar o selo. A
parte executiva ficando a meu encargo. O selo tornou-se o maior selo
especializado em blues do Brasil e esse ano estamos chegando ao 15º
CD lançado, além do primeiro e único DVD lançado por um artista
do gênero no Brasil: Big Band Ao Vivo. Somente nesse ano,
teremos lançado este DVD, o CD de Peter Madcat gravado aqui no
Brasil no Mistura Fina, os novos CDs de Jefferson Gonçalves, Blues
Power, Beale Street e o primeiro do Mojo Society.
Qual
a sua visão, como músico e como empresário, da cena blues
nacional?
A
cena de blues nacional vem crescendo a cada ano, é inegável. E com
isso, a concorrência aumentou e o nível dos instrumentistas também.
Embora tenhamos cada vez menos espaços fixos para blues,
especialmente no eixo Rio-São Paulo, o número de festivais e
eventos vem crescendo por todo o Brasil. O nível de produção dos
Festivais está cada vez mais profissional, mas falta essa
profissionalização chegar às bandas, que no geral não conseguem
arcar com os custos de uma equipe de produção para melhor
executarem seu trabalho.
Você
acabou de lançar o primeiro DVD de blues brasileiro. Quais foram as
dificuldades enfrentadas? O DVD já é viável para o músico de
blues brasileiro? Qual a expectativa em relação ao DVD, do ponto
de vista da Blues Time Records?
Os
custos são muito altos e, realmente, sem o apoio de algumas pessoas,
não teríamos conseguido. O custo final, acredito que ainda esteja
acima do mercado independente em geral. O retorno é demorado. Para
a Blues Time Records acho que foi muito importante lançar o
primeiro DVD do blues nacional, pois mostrou que o selo está
seguindo o rumo do mercado atual, atualizado com as novas mídias.
Estamos atualmente com uma distribuição nacional pela Tratore.
Agora, todos os produtos da Blues Time podem ser achados
em todo o Brasil. Isso foi muito importante. O DVD foi também o
primeiro a ser distribuído por eles, entre todos os independentes.
Qual
é a maior dificuldade no Brasil para o lançamento de discos de
blues?
Acredito
que, além do total desinteresse dos grandes meios de comunicação
pelo gênero, seja a falta de rádios com programação que inclua
blues.
Você
é presença marcante em praticamente todos os grandes festivais de
blues no Brasil. Qual a sua opinião a respeito dos festivais? Qual
o papel que eles têm na cena blues nacional? Você acha que este
papel está sendo cumprido? O que você acha que pode melhorar?
Acho
que os Festivais são os grandes eventos do Blues nacional hoje.
Como despertam atenção da mídia, estão aos poucos quebrando a
barreira dos grandes veículos de mídia e divulgando o gênero cada
vez mais. Acho muito importante o intercâmbio entre os artistas
brasileiros e americanos que ocorre nos festivais,
isso possibilita uma troca de experiências essencial no meio
do blues. Pode ser melhorada a quantidade de eventos, que pode ser
ainda maior. O Festival de Rio das Ostras está servindo como
exemplo para eventos desse tipo serem incluídos nos calendários
das Prefeituras pelo Brasil.
Para
você, que já tem 10 anos de carreira, como está o cenário blues
no Brasil agora, em comparação a dez anos atrás?
Naquela
época, se achava mais lugares para tocar, mas aconteceu o
fechamento do Circo Voador e isso representou o fim de um ciclo para
o blues brasileiro. Dez anos depois houve uma renovação dos
artistas do gênero e, com a Internet, novas possibilidades
apareceram.
Como
você define o seu estilo atual? Qual é a sua proposta?
Depois
que tomei a frente dos vocais, a partir de meu segundo CD, passei a
ver o show de um modo diferente e acho que melhorou bastante para o
público em geral. Por essa e outras razões é que resolvi fazer o
DVD. Para registrar essa evolução em relação ao começo de minha
carreira, um momento especial. Minha proposta hoje em dia é tentar
levar uma boa música para as pessoas, para que elas passem momentos
agradáveis enquanto assistem ao show, ao DVD ou ouçam os CDs.
Quais
são os seus projetos atuais?
Atualmente
estou me concentrando na Tour de divulgação do DVD,
que espero poder levar ao maior número de lugares possíveis. Também
estamos com vários lançamentos esse ano na Blues Time, que estou
tentando tornar cada vez mais sólida para podermos divulgar mais e
mais o blues pelo Brasil. Outro objetivo é lançar o CD Live in
Rio gravado com Peter Madcat com uma tour pelos EUA
para podermos marcar esse projeto.
O
que você diria para quem está conhecendo o blues agora, como músico,
ou como apreciador?
Para
todos que não conhecem ainda o blues, eu diria que não há música
mais honesta e transparente. Ele reflete a pureza, a alma e a
simplicidade das pessoas que o fazem, pois é uma música vinda do
fundo do coração, uma antena para transmissão da emoção de quem
está tocando.
Quais
são seus sonhos?
Quem
não sonha, não tem futuro. Nunca esperei ter uma carreira no
Brasil tocando blues e isso aconteceu. Nunca sonhei com isso, mas
desejei bastante e continuo desejando muito continuar por muitos
anos até não conseguir mais dar um bend (risos) !
Discografia:
-
“Big
Joe Manfra" - Big
Joe Manfra (Blues Time) - 1997
- “Big
Joe Manfra 2” -
Big Joe Manfra (Blues Time) - 1998
- “Blues
Etc.l” -
Blues Etc.
(Blues Time) - 2000
- “Big
Band ao vivo” (DVD) - Big
Joe Manfra
(Blues Time) -
2006
Confira
também as entrevistas anteriores:
Fernando
Noronha (maio de 2006)
Jefferson
Gonçalves (março de 2006)
Solon
Fishbone (fevereiro de 2006)
Flávio
Guimarães (janeiro de 2006)
Nuno
Mindelis (dezembro de 2005)
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