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Lancaster
Por
Edson Travassos
Como
começou a sua vida artística?
Comecei
por volta de 1983 com uma banda de rock chamada Plástico,
que misturava rock inglês do final dos anos 70 com punk e
progressivo. Era o som mais diferente e cabuloso que já toquei! Só
tocávamos músicas nossas. Participei de Festivais ao lado da
bandas como RPM e Paralamas, e é lógico que eles ficaram famosos e
minha banda esquisita não!
O
que o levou ao blues?
A
primeira influência, ainda na minha infância, foram discos de
Tommy Dorsey, Duke Ellington e Count Basie que meu pai escutava em
volumes ensurdecedores na sala da minha casa. Daí minha paixão
pelo swing e pelo blues sofisticado de Louis Jordan e B.B.King.
O
que é o blues para você?
É
um sentimento que nem é de alegria nem de tristeza. É uma vontade
muito intensa de tocar e de viver. Quando fiz meu terceiro CD,
"A Beautiful Day For The Blues", foi para dizer que todo
dia acordo com vontade de tocar blues.
Quais
foram, e quais são as suas influências?
Será
que você tem espaço para esta resposta? Guitarristas: Keith Wyatt
(meu professor em Los Angeles), T-Bone Walker, Muddy Waters,
B.B.King, Otis Rush, Buddy Guy, Lucky Peterson (também é um dos
meus organistas prediletos), Ronnie Earl, Albert Collins, Albert
King, Freddie King, etc... Pianistas:
Otis Spann, Johnnie Johnson, Charles Brown e Ray Charles.
Organistas: Jimmy Smith, Jimmy McGriff e Bruce Katz.
Como
aconteceu a sua ida para os EUA a fim de estudar no GIT?
Fui
incentivado pelo meu amigo Tuto Ferraz, que estudou bateria lá. Foi
uma chance de ficar nos E.U.A. legalmente durante um ano e meio
estudando com um dos maiores guitarristas de blues da atualidade.
Para juntar dinheiro para ir toquei em uma banda de Axé durante
quatro meses logo antes da viagem – tudo é experiência!
Você
acha que o tempo que você permaneceu nos EUA te deu um diferencial
em sua música? O que isso contribuiu para a sua carreira?
Tocar
ao lado de músicos americanos para platéias americanas me deu uma
perspectiva diferente do blues. Lá existe sempre um aspecto
extrovertido nos shows, uma comunicação com a platéia. No começo
eu era muito tímido e só ficava tocando no meu canto, mas como fazíamos
testes semanais (auditions) em novos bares para conseguirmos shows,
o Crosby Tyler - dono da banda - mandava eu tocar com a guitarra nas
costas, passear no público, etc... Aprendi muito este lado performático
lá.
Como
é a cena blues nos EUA, em comparação à daqui do Brasil?
Existem
inúmeros bares e festivais de blues nos E.U.A. mas todos pagam
muito mal. As bandas sobrevivem de tocar cinco ou mais noites por
semana e por serem projetadas para festivais melhores na Europa. No
Brasil, conta-se nos dedos os Festivais e casas noturnas que
promovem o Blues.
Você
tem tocado em diversos festivais pelo país. Onde você acha que
existe maior receptividade? Existe algum lugar do qual você tenha
algo especial para falar?
Uma
das melhores cenas do país é a de Recife, onde a "Oi "
tem patrocinado um projeto constante chamado “Oi Blues By Night”.
Como todos os eventos de blues no Brasil, este projeto é fruto da
iniciativa de um indivíduo - o baterista e produtor Giovani Papaleo-
que o criou e o mantém acontecendo. Ele leva semanalmente artistas
de todo o Brasil e dos Estados Unidos para fazer shows lá. O
diferencial deste projeto é que ele acontece ao longo do ano e não
só em poucas datas concentradas.
Conte
algum fato interessante, ou diferente, que aconteceu em suas
apresentações.
Certa
vez eu estava me apresentando no Mr. Blues e saí do palco para
tocar no meio do público. Eu subi em cima de uma mesa e comecei a
fazer umas gracinhas com a guitarra. Percebi que todos me olhavam
assustados. É que minha cabeça estava a poucos milímetros de um
ventilador que quase me decapitou!
Como
você vê a cena blues atual? Está melhor ou pior do que antes?
Está
mais difícil achar lugares para tocar, pois as gerações mais
novas no Brasil cresceram ouvindo apenas aquilo que toca na rádio e
na televisão. Há uns dez anos atrás, quase todo jovem de classe média
conhecia os ícones do rock Inglês e americano dos anos 60 e 70.
Através destes artistas eles tinham o primeiro contato com o Blues.
Isso era uma ponte ao blues tradicional que deixou de existir. A
galera de hoje corre menos atrás de sons diferentes. Eles
simplesmente aceitam o que lhes é imposto pela rádio e TV.
Para
você, quem são as pessoas que ouvem blues no país? É diferente
dos EUA?
O
público de Blues no Brasil é parecido com o de outros países - em
sua maioria é composto de indivíduos de mais de 25 anos de idade,
classe média ou classe alta, em sua maioria homens.
Como
você define o seu estilo atualmente?
Blues
de alta voltagem combinado com soul e ritmos latinos.
Você
se considera um guitarrista que canta, ou um cantor que toca
guitarra? Você acha que essa pergunta tem pertinência?
Sou
um guitarrista que canta. A guitarra é meu meio de expressão artística.
Para poder trabalhar melodias mais elaboradas no meu trabalho novo
eu tenho até um cantor que faz grande parte do meu repertório em
português. Eu
interpreto o vocal dos clássicos do repertório, por eles já
fazerem parte da minha vida.
O
que você acha que falta no país em relação ao blues?
Falta
apoio dos meios de comunicação dos grandes centros. Quando o blues
começou no Brasil era comum vermos shows na televisão e notícias
nos jornais. Era uma curiosidade ver brasileiros tocando esta música
do Mississipi. Vinte anos depois o blues não é mais uma novidade e
está estabelecido no país e tem trabalhos e artistas de altíssimo
nível, que impressionam os americanos que por aqui passam. Hoje o
blues precisa ser divulgado não como uma coisa exótica e sim como
uma manifestação cultural que foi incorporada pelos músicos
brasileiros. Está na hora de aceitar o fato que o blues também é
brasileiro.
O
que você acha que nós já conquistamos a esse respeito?
Temos
agora pelo menos três gerações de blueseiros profissionais no
Brasil. Os veteranos atingiram um ponto no qual alcançaram um
estilo próprio. A nova safra de blueseiros tem tido um
amadurecimento muito rápido, pois cresceram vendo shows de blues ao
vivo, e tem acesso maior a música através da internet e de veículos
com a Blues’n’Jazz. Estamos produzindo blues de ótima
qualidade.
Quais
são seus projetos atuais?
Sempre
correndo atrás do som que ouço na minha cabeça, eu montei uma
banda de oito integrantes no estilo da de B.B. King com sopros e
dois vocalistas. Meu repertório novo é muito mais autoral e tem
muitas músicas em português.
Quais
os seus planos para o ano que vem?
Estar
vivo!
Qual
seria o seu recado para o nosso leitor?
Parabéns
por buscar seu próprio caminho musical e cultural. O fato de estar
lendo a Blues’n’Jazz é prova que você está fazendo isso!
Discografia:
-
“Big
Joe Manfra" - Big
Joe Manfra (Blues Time) - 1997
- “Big
Joe Manfra 2” -
Big Joe Manfra (Blues Time) - 1998
- “Blues
Etc.l” -
Blues Etc.
(Blues Time) - 2000
- “Big
Band ao vivo” (DVD) - Big
Joe Manfra
(Blues Time) -
2006
Confira
também as entrevistas anteriores:
Big Joe
Manfra
Fernando
Noronha (maio de 2006)
Jefferson
Gonçalves (março de 2006)
Solon
Fishbone (fevereiro de 2006)
Flávio
Guimarães (janeiro de 2006)
Nuno
Mindelis (dezembro de 2005)
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