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André
Christovam
Por
Ugo
Medeiros
Você
já gravou Delta blues, Chicago, blues-rock, blues com musicalidade
brasileira etc. É
importante o músico de blues ter um estilo específico, ou é
melhor ter variações musicais? Como você se definiria neste
momento?
Como
um traidor do movimento (risos)! Hoje minha música tem muito mais
Edu Lobo e música brasileira do que música americana. Atualmente,
meu blues é mais influenciado por grandes harmonizadores do que por
qualquer outro grande guitarrista, como B.B King, Albert King e
Freddie King. É claro, estudei vários músicos, desta forma a
musicalidade deles aparece direta ou indiretamente. A
“mistureba” que eu faço é devido a minha condição de
brasileiro: a forma que eu uso a corda e a harmonia é de um músico
que nasceu e cresceu ouvindo música brasileira. Os acentos rítmicos
e o tipo de acorde são elementos que têm relação com a nossa
cultura. É de quem ouviu Hermeto Pascoal e Grupo Um, e estudou com
Hamilton Godói. Todos eles foram muito importantes para a forma
como enxergo música hoje. Porém, às vezes, temos encontros
inusitados no meio do improviso e toco pensando
em Mick Taylor
, na época do Bluesbreakers, e o caminho harmônico me leva a
Herbie Hancock ou Monty Alexander. Gosto de tocar de forma autêntica
com músicos que gostam de tocar de forma autêntica; gosto de
experimentar e tocar livremente com pessoas que têm competência e
técnica o suficiente para se entregar a este tipo de aventura.
É
possível dizer que você atingiu a sua maturidade com o
“Banzo”, disco no qual já tem musicalidade brasileira no repertório?
Foi
o primeiro disco que fiz, todos os outros foram testes. Eu gosto
muito do “Mandinga” e do “A touch of glass”. Cada disco é
um cartão postal que reflete e representa a imagem e uma
perspectiva da época. Se eu gravasse um CD hoje, seria
completamente diferente de tudo que já gravei antes. Até mesmo
para fazer uma continuação do “Banzo”, eu teria que podar uma
série de facetas da música que eu ouço. Isto não é o meu
desejo.
Qual
foi o tipo de blues mais importante para a sua formação, o
americano ou o inglês? Como você faz esta distinção?
O
inglês foi mais importante, porém o americano é a fonte. As
deficiências técnicas da Inglaterra fizeram com que eles criassem
aquele som. O que me levou à guitarra foi o blues inglês; jamais
teria me tornado músico se tivesse ouvido um disco do B.B King. Se
não fosse pelo Cream, dificilmente teria me interessado pela
guitarra.
O
Eric Clapton é o seu grande ídolo?
Sem
dúvida. Porém, não tenho nenhuma semelhança sonora com ele. O
que busco dele, que acho mais genial, é a habilidade de transitar
sobre o tempo, o senso de colocação e de fraseado que ele tem. O
timing dele é um dos mais perfeitos, e isso desde os tempos de
Cream.
Pode-se
dizer que o rock te levou ao blues?
Com
certeza, assim como a grande maioria dos brancos no planeta. Com
exceção do Michael Bloomfield, todos começaram no rock'n'roll. Não,
me engano. O Michael começou por causa do Elvis, então, não,
ninguém que eu me lembre (risos).
Poucos
sabem, mas você estudou música num instituto, na Califórnia. Você
acha que os músicos, hoje em dia, têm preguiça de aprender técnica?
Às
vezes sim. Na época, meu desejo de ser músico era tão grande que,
para ter a guitarra, tive que aprender violão clássico. A fim de
me aprofundar, fiz regência durante três anos na Faculdade
Paulista de Arte, e já tinha quase quatro anos de CLAM. Depois fui
para os Estados Unidos me formar
em instrumento. Na
época que fiz o GIT, era o primeiro ano da escola como "musician
institute": o primeiro semestre era de percussão e o segundo,
de contrabaixo. Portanto, o treinamento era muito forte para que nos
transformássemos em músicos de estúdio, que era o mais simbólico
da época. Os nomes da moda no mundo da guitarra, no início da década
de 80, eram Robben Ford, Larry Carlton, entre outros, mais até do
que o Van Halen, que tinha um apelo popular maior. Para ser músico
de estúdio era necessário uma preparação: leitura, conhecimento
de vários estilos e harmonia. É muito importante a pessoa se
dedicar ao instrumento como um todo, ter uma técnica clara para
poder executar as idéias sem dificuldade; para que a transição
entre aquilo que nos inspira e aquilo que executamos seja mais rápida.
Como
foi o seu primeiro contato com a guitarra?
O
meu primeiro instrumento foi o violão clássico. Fiz três anos de
violão clássico, mas sempre querendo uma guitarra. Meu primeiro
contato com a guitarra deu-se em 75, quando já tocava há mais ou
menos uns três anos. Ganhei uma Giannini Stratosonic e alguns meses
depois comprei uma Fender Stratocaster. Finalmente, após alguns
meses, consegui uma Les Paul. Esta era, de fato, a guitarra que
queria para fazer um som parecido com o que o Clapton fazia no
Bluesbreakers e o Jeff Beck no “Truth”. Ao mesmo tempo, queria o
material que o McLaughlin e o Page usavam. Gostava do Cream e da
Mahavishnu; gostava de música tocada com grande eloquência e
habilidade de navegação em meio à improvisação. Estas duas
bandas tinham muito disso.
Você
já está na estrada há mais de 25 anos. Você se considera um dos
precursores do blues no Brasil?
Para
ser mais exato, 31 anos. Eu não me lembro de muita gente fazendo
exatamente blues; lembro, sim, de pessoas usando elementos do blues
de forma bem tocada. Lembro do Tony Osanah, que cantava e tocava
gaita e guitarra, e da Rosa Maria, cantando uma música gospel, mas
também com elementos blues. O primeiro brasileiro que vi tocar bem
guitarra foi o Cândido Serra, inclusive tive aula com ele no CLAM
(Centro Livre de Aprendizagem Musical). Ele morava em Chicago, e
depois veio pra São Paulo. Meu contemporâneo, tem o Celso Blues
Boy, que entrou em carreira solo antes de mim. Ele tocava com o Sá
& Guarabyra, onde ganhou o apelido “Blues Boy”, e os
primeiros discos deles são todos voltados pro rock'n'roll, com uma
guitarra nervosa e blueseira. Nesta altura, por volta de 1976, eu já
estava com o Fickle Pickle (banda de rock antes da carreira solo) e
bem envolvido com o blues. Quando fui para os EUA, final de 81/começo
de 82, ficou claro que eu queria, realmente, me dedicar ao blues.
Quando
você sentiu que era hora de partir para a carreira solo?
Eu
tinha um trio chamado Fickle Pickle, no qual trabalhei por dezessete
anos, e foi o amor da minha vida. Nunca quis ter carreira solo, mas
eles eram tão irresponsáveis em relação a horário, que eu
passei a tocar sozinho. Descobri alguns lugares menores que
aceitavam apresentação apenas com um violão e passei a expandir
meu repertório de Delta blues. Ao mesmo tempo, surge o CD na
indústria fonográfica e entro em contato com Charley Patton, Blind
Willie McTell e Blind Willie Johnson. O preparo que tive antes me
proporcionou uma interpretação bastante sadia desse tipo de música.
Uma coisa foi levando a outra. Quando estava tocando solo no Espaço
Off, o João Lara, da gravadora Eldorado, estava presente. Após o
show ele me ofereceu um contrato. Foi quando virei o André
Christovam.
Como
foi a gravação do “The 2120 Sessions”?
Fui
fazer uma turnê americana que terminava em Chicago, na festa de lançamento
póstumo do disco do Stevie Ray Vaughan com o Jimmy Vaughan, no
Legend's. O Stevie já havia morrido; conheci o Jimmy um ano antes.
O Buddy Guy (dono da casa) deu uma festa muito grande pois adorava
os dois. Ele queria que eu tivesse um bom público, por isso
escolheu aquela noite para eu tocar. Estavam vários dos grandes
nomes do blues, entre eles, o B.B. Odon. Ele gostou do que estava
ouvindo e subiu para dar uma canja. Aproximadamente onze meses
depois voltei a Chicago e gravamos o “
2120”
em um sábado e um domingo, na Chess Records. Na realidade, passei
uma semana gravando os violões e fazendo as experimentações, porém
a parte de banda foi gravada durante esses dois dias. A minha foi a
última gravação de blues pela gravadora. Após uns seis ou oito
meses, a Chess encerra suas atividades como gravadora e é tombada
pelo patrimônio histórico.
Em
96 você foi chamado para tocar com o Santana, no primeiro show dele
em São Paulo. Como
foi?
Eu
não lembro de nada, apenas que eu tava com uma roupa preta. As
coisas que eu sei, me contaram. Foi uma emoção muito grande. Não
é o Santana apenas, e sim o que está em torno dele que o faz ter
aquela força. Ele tem uma energia muito forte; suga toda a sua
energia. Mas, ao mesmo tempo, deixa à sua disposição Chester
Thompson, Raul Rekow e Armando Peraza. Quando você toca com as
congas do Raul e com aquele tipo de harmonia do Chester, o céu se
abre. É impressionante, uma força sobrenatural.
Você
é conhecido nos EUA. Você acha que o bluesman brasileiro começa a
ser visto de outra forma no exterior?
Bem
melhor que o músico de rock brasileiro. Existem quatro ou cinco músicos
de rock brasileiro que são levados a sério pelos roqueiros
americanos, enquanto há um número maior de músicos de blues com
um respaldo interessante. O Flávio Guimarães e o Nuno Mindelis são
muito queridos lá fora. O Igor Prado começa a ganhar respeito. Não
importa a cor ou nacionalidade para o blues, uma língua muito próxima
ao coração. Se você falar, acaba sendo aceito. Sem dúvida, o
pessoal do blues está melhor que o do rock.
Confira
também as entrevistas anteriores:
Otávio
Rocha
Big
Gilson
Celso Blues Boy
Lancaster
Big Joe
Manfra
Fernando
Noronha
Jefferson
Gonçalves
Solon
Fishbone
Flávio
Guimarães
Nuno
Mindelis
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André
Christovam
(foto:
Chico Gadelha)
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