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Celso
Blues Boy
Por
Rafael
Souza e Luiz Kaffa
Você
é considerado por muitos o precursor do blues no Brasil. Como foi o
seu primeiro contato com o blues?
Um
tio-avô meu foi para os Estados Unidos, mas não entendia nada de música.
Então pediu para o lojista escolher uns discos e me enviou alguns.
Nessa época, com onze anos de idade mais ou menos, ouvia todos os
dias aquele disco em minha vitrola de pilha. Nos anos 70, já no Rio
de Janeiro, e já tocando guitarra, fui em uma festa e lá havia
alguns instrumentos: guitarra, bateria, baixo, e disseram para alguém
que eu tocava. Depois que eu toquei algumas músicas uns caras
vieram me falar: “Pô! Como é que você conhece blues?” E eu
disse: “Mas eu não conheço blues”. “Como não conhece? Você
tá tocando blues!” Aí, fiquei amigo dos caras e depois levei
aquele disco que eu tinha desde criança pra eles verem e eles
disseram: “Esse cara aqui é o B. B. King. É o rei do blues”.
Mas até aquele momento eu não sabia quem era B. B. King, se era um
guitarrista solo ou era só o cantor, só sabia da fotografia do negão
lá. Mais nada. Daí, conheci algumas pessoas e mais algum material
de blues e comecei a tocar, e também a compor em português, porque
achava que não seria interessante fazer igual a eles, pois ninguém
faria melhor que eles a não ser que tentasse fazer com alguma coisa
de diferente.
Você
participou de uma banda tida como uma das primeiras bandas de blues
do Brasil. Como foi isso?
Nos
anos setenta ainda, um cara chamado Geraldo Darbili era baterista.
Ele e a tia dele compraram uma casa em Copacabana e fizeram o
primeiro pub de blues que teve no Brasil. Esse lugar se chamava
Apaloosa, e ele me contratou pra fazer o meu som, com alguns outros
músicos. Eu sugeri que a banda se chamasse Aeroblues. Depois ele até
registrou o nome, mas tudo bem, não tem problema. A banda causou um
imenso impacto na época, pois não se tinha registro de banda de
blues no Brasil. Chegávamos a fazer cerca de três shows por noite
em finais de semana, com muita gente esperando do lado de fora. Foi
assim durante dois anos e meio, quase três.
Você
tocou com vários nomes da música brasileira antes de se firmar na
carreira solo. Como foi essa experiência?
Com
17 anos eu tocava com Sá & Guarabira. Toquei com vários
artistas, eu gosto sempre de dizer. Toquei com Raul Seixas, com o
Melodia, gosto de dizer porque eu gosto deles. Mas já gravei discos
com outras pessoas e fazia shows com elas também. Além disso tinha
as minhas bandas. Tinha uma chamada Legião Estrangeira, que é
muito anterior ao nome Legião Urbana. Renato Russo até falou: “Pô,
eu sei que você tinha a Legião Estrangeira. Não tem grilo?” E
eu disse: “Não, não tem grilo nenhum”. Raul foi uma grande
experiência. Gravamos discos, fizemos muitos shows e ele era uma
pessoa muito querida para mim. É uma pena que ele nunca teve alguém
que realmente se importasse com ele, para não permitir o que certas
amizades que ele tinha, fizessem o que fizeram com ele. Ele não
tinha quem o protegesse. Raul queria na verdade ser algo como Elvis
Presley. Ele era um rocker. Às vezes ficava muito louco. Atire a
primeira pedra quem nunca fez uma besteira.
E o nome Celso Blues Boy, como surgiu?
Nessa
época eu tocava com Sá & Guarabira. Eu tinha 17 anos. O Sá
sabia uma coisa que eu não sabia. Que B. B. King era “Blues
Boy” King. E aí ele começou a me chamar de Celsinho Blues Boy.
Depois de alguns cartazes com destaque para este nome (muitas vezes
de sacanagem do Sá), tirou-se depois o diminutivo e pegou.
E
o reconhecimento da midia, quando veio?
Foi
com Aumenta que isso aí é rock’n’roll.
As pessoas, quando assistiam meu show, perguntavam: “Quem
é esse cara que tá tocando?”. Acabava a música e as pessoas se
dispunham a ouvir outras músicas que eu tocava, entre elas alguns
blues e rhythm & blues. Isso foi começando a chamar a atenção
da midia, e comecei a tocar em todos os grandes programas e aparecer
em grandes jornais e revistas. Nessa época, as bandas que faziam a
abertura dos meus shows eram Kid Abelha, Legião Urbana, Barão
Vermelho e Titãs. Por exemplo, o Cazuza, depois que saiu do Barão
Vermelho, fez sua primeira gravação em um disco meu, eu o convidei
para fazer uma ponta em uma música que veio a fazer sucesso depois,
que se chamava Marginal. É engraçado que não colocam isso
nem na discografia dele. Mais engraçado ainda foi com os Titãs. O
primeiro show que eles fizeram no Rio de Janeiro foi abrindo meu
show no Circo Voador. Eu me lembro que existia uma rixa muito grande
entre São Paulo e Rio na época. Quando vi a passagem de som deles,
falei com a produção que aquilo poderia não dar certo. Os caras
estavam vestidos meio esquisitos e dançavam estranhamente; além
disso, a música falava palavrões. Achei que podia dar confusão.
Eu era jovem mas já era retrógrado (risos). Quando chegou no show,
não deu outra, foi uma chuva de latas em cima deles. O mais curioso
é que saiu nas bancas de jornal, uma enciclopédia ou algo assim,
algo bem legal falando do rock Brasil, e lá eles falam que nada
disso aconteceu e que foi uma banda de heavy metal que havia feito a
abertura do show e a confusão tinha sido feita pelos fãs dessa
banda. Há certas vaidades que não permitem que as pessoas, as
futuras gerações, saibam com clareza como foi a história do rock
e do blues no Brasil. O que é uma pena.
E
o Circo Voador, qual a importância desse espaço histórico na sua
carreira?
Foi
no Circo Voador que eu descobri que estava fazendo sucesso mesmo. Eu
morava em Santa Teresa, onde passam aqueles bondinhos, e logo que o
Circo Voador chegou na Lapa, eu estava tocando muito na rádio
Fluminense, e nem era disco, era fita cassete. Então fui convidado
para fazer a abertura do show do Robertinho de Recife no Circo. Os
shows deram uma média de 800 pessoas por dia, o que para a época
era um bom público. Depois destes shows o Circo Voador e a rádio
Fluminense me fizeram uma oferta pra fazer um show sozinho lá. No
dia do show, vou de bondinho para o Circo. Quando estou passando em
cima dos Arcos da Lapa e olho para o Circo, falei: “Meu Deus – e
ainda era a época da ditadura militar – vai ver que tem alguém
fumando alguma coisa que não devia”. Era uma multidão inacreditável.
Quando eu desci do bondinho com a guitarra e cheguei no Circo
Voador, vi que aquela multidão não era confusão nenhuma. Era pra
ver o meu show. Tive que sair correndo e entrar pela lateral do
Circo, porque as pessoas já estavam me cercando e saíram correndo
atrás de mim. Tive que correr muito. Ainda bem que eu tinha uma saúde
de ferro. É uma historia que eu gosto de contar porque foi o dia em
que realmente eu senti: “Pô, eu virei alguma coisa”.
E
a sua amizade com B.B. King como começou?
Fui
contratado por uma revista para fazer uma entrevista “de
guitarrista pra guitarrista”. E ele ia fazer uma coletiva no Hotel
Nacional do Rio. Só que, quando eu cheguei, com crachá de repórter
e tudo, não colou. Todo mundo queria tirar foto, falar comigo. E
alguém falou que ele queria me conhecer. Ainda mais porque eu tinha
o nome dele. Eu tinha levado dois discos meus pra ele. Marginal
estava tocando em todas as rádios do Brasil. Aí me botaram na
frente do cara. Nos conhecemos, ele me pediu pra eu autografar os
meus discos que dei a ele. No dia do show, ele me chamou no palco, a
platéia praticamente me atirou lá em cima. Ele me deu a guitarra
dele pra tocar e disse: I love your feeling. Nessa hora, eu
devolvi a guitarra. Eu já havia ganho a vida. O mundo pode me
odiar, mas a minha missão está cumprida.
Dizem
que você nem tocou direito porque estava em prantos. É verdade?
É
pura lenda. Eu chorei sim, mas foi antes, durante a coletiva com a
imprensa. E nem foi na frente dele. Eu fui pra última cadeira do
auditório pra ninguém me ver chorando. Aí ele se levantou e me
levou pra sentar do lado dele durante toda a coletiva. Depois do
show ele me convidou para tentar uma carreira solo nos Estados
Unidos. Eu não tinha condições de largar a minha carreira, no
melhor momento dela no Brasil, preferi ficar. Um ano depois ele
volta, e ele e seu empresário disseram que as vendas de discos do
B. B. King haviam aumentado muito no Brasil. Certa vez ele me
perguntou: “Você sabe porque eu gosto do seu blues? É que eu não
gosto de ver o blues renegado à idéia de um negrão tocando três
acordes com uma garrafa de uísque no chão, você toca
diferente”. Foi aí que eu vi que estava fazendo a coisa certa, eu
estava liberando mais uma outra forma de blues e não agredindo o
blues, como muitos outros artistas, americanos, que acham que se não
for daquela forma mais tradicional, não é blues. Uma coisa que
sempre defendo é que o blues não é americano. O blues não é
japonês. Não é nada. O blues é uma música do coração.
Ele sempre falava comigo bem pausadamente, Por que ele notava
que o meu inglês não era dos melhores. Aliás, o pouco que eu sei
de inglês até hoje eu devo muito a ele (risos).
Como
você vê o mercado de blues no Brasil?
Depois
dessas vindas de B.B. King ao Brasil, e da mídia toda em torno
delas, é que se começou a abrir o mercado. Como eu estava no meio
disso tudo, acabei entrando junto e também participando desse
mercado. Meus discos também tiveram boas vendas. De repente começou
uma explosão de bandas de blues pelo Brasil inteiro. Até pouco
tempo eu tinha matérias que falavam sobre isso em grandes jornais
do país. Me lembro de uma manchete da Folha de São Paulo que
dizia: “Os blues boys do Brasil”. Só em São Paulo naquela época
tinha mais ou menos 250 bandas de blues (final dos anos 80 e começo
dos anos 90). Mas isso não me espantava porque em todo lugar que eu
tocava, e era em quase todo Brasil, sempre tinha uma banda de blues
e uma rádio que tocava blues.
O
fato de cantar em português não atrapalhou a sua carreira
internacional?
Eu
não sinto dessa forma, acho que nos países onde toquei, nos
Estados Unidos ou na Europa, eles gostavam da minha música como um
todo e no final até diziam que não entendiam nada do que eu dizia
nas letras, mas que gostavam muito do som.
Você
se considera uma influência para as bandas e artistas que vieram
depois de você?
Eu
posso ter até influenciado algumas pessoas ou bandas, mas o que eu
sinto falta neste legado que poderia ter deixado são artistas que
trabalhem com composições próprias, o trabalho autoral. Algumas
bandas que eu até tentei ajudar vieram depois denegrir meu trabalho
pelo fato de ser em português. Mas acho que isso não influenciou
em nada minha carreira. Não adianta você tocar guitarra pra c... e
não ter um trabalho autoral, e o português é a diferença. Pelo
menos no meu caso foi.
E
o
futuro do blues no Brasil, como você vê?
Eu
vejo com esperança. O blues já é uma música aceita. Mesmo que
escutem poucos artistas brasileiros e muitos estrangeiros. O que
falta mesmo é o aparecimento e a oportunidade para bandas com
trabalhos autorais bons, e que elas não percam o rumo e as
oportunidades.
E
o futuro na sua carreira?
Bom,
eu estou terminando um CD que preparei durante três anos e meio.
Vai ser o CD mais bonito da minha carreira. Setenta por cento dele já
está gravado. As pessoas nunca param pra pensar no que é você
fazer sucesso. O meu primeiro LP eu demorei anos pra gravar. Peguei
só a nata das músicas que tinha composto. No ano seguinte já
queriam que eu gravasse outro sucesso. As grandes gravadoras querem
isso. Mas depois do primeiro sucesso vêm os shows e você não tem
nem tempo pra compor. Hoje, o meu produtor e empresário quer que eu
grave um DVD. Eu não queria muito fazer isso. Ele fala que é
necessário. Eu até acredito, porque ele é meu amigo, e pode até
acontecer que eu faça. Mas na verdade, neste momento, isso não me
dá tesão. O que me dá tesão é este CD. Ele tá lindo. Eu
convidei à minha casa os maiores especialistas em Celso Blues Boy,
todos eles guitarristas, e eles sabem da minha obra melhor que eu.
Todos eles disseram que este disco será minha obra-prima.
Qual
o balanço que você faz da carreira?
O
balanço é sempre positivo. Pra ilustrar posso citar um fato
curioso. Próximo ao Circo Voador existe uma maternidade. Outro dia,
andando nas ruas do Rio de Janeiro, encontro um “compadre” que
tinha colocado o nome do filho dele de Celso porque no momento em
que ele nascia na maternidade ao lado, eu mandava ver na guitarra no
Circo Voador. Você não coloca o nome em um filho à toa. Então, aí
eu tenho certeza que a minha vida valeu pra alguma coisa.
Discografia:
Confira
também as entrevistas anteriores:
Lancaster
Big Joe
Manfra
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Nuno
Mindelis
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Celso
Blues Boy
(foto:
Luciano
Mattos)
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