Bourbon Street Fest: de novo, o melhor de New Orleans

Por Helton Ribeiro

 

   Mostrando que a música de New Orleans continua viva e vibrante, o Bourbon Street realizou em agosto sua melhor edição, trazendo a São Paulo seis artistas e grupos da cidade. Como sempre, os shows foram no Bourbon e em palcos ao ar livre, com entrada franca, no parque do Ibirapuera e na rua dos Chanés, onde fica a casa noturna.

   O Bonerama foi a revelação do festival. Quatro trombones, tuba, guitarra e bateria modernizam o som das ancestrais brass bands (bandas de metais), dando um passo além do que a Dirty Dozen Brass Band fez nos anos 80. Eles tocaram de The Meters (Hey pocky way) a Jimi Hendrix (Crosstown traffic, com um solo do líder Mark Mullins usando pedais de distorção). Na rua dos Chanés, acrescentaram War pigs, o manifesto do Black Sabbath (!) contra as guerras.

   O saxofonista Donald Harrison, que começou a carreira como jazzista ortodoxo, hoje é um showman: tocando um R&B contemporâneo, ele cantou e dançou. O show contou com Bill Summers na percussão e teve participações da cantora Tamika e do trombonista Troy Andrews tocando corneta (o antepassado do trompete). No final, o chefe índio Shaka Zulu (um performer com fantasia de cacique) e a cantora Wanda Rouzan, agitando uma sombrinha multicolorida típica das festas de New Orleans, uniram-se à banda para dançar como no Mardi Gras, o carnaval da cidade.

   Em seu próprio show, Wanda justificou o título de embaixadora de New Orleans desfilando clássicos da cidade, como Iko iko e Blueberry hill. O final foi ainda mais apoteótico que o de Harrison. Todos os músicos presentes na noite repetiram o carnaval de New Orleans, e Shaka Zulu apareceu com pernas de pau. Desceu do palco e, equilibrando-se com incrível habilidade

com pernas de pau e tudo, dançou no meio da platéia.

   Uma surpresa foi a canja de Big Time Sarah no show do guitarrista Little Freddie King. A estrela do blues de Chicago veio se apresentar nos festivais de Ribeirão Preto e Bauru (interior de São Paulo). De passagem pela cidade, foi ao Bourbon e subiu ao palco, cantando Sweet home Chicago. Terminou o número rebolando o imenso traseiro, o que levou o público ao delírio.

   Little Freddie King trouxe o swamp blues, ou blues da Louisiana – ritmado, alegre e simples, baseado em acentuadas linhas de baixo feitas na guitarra. Tocou músicas próprias e covers como Things that I used to do e The stumble – esta, não por coincidência, do mais famoso Freddie King, já falecido. O simpático velhinho dançou, ajoelhou-se, tocou a guitarra entre as pernas e imitou as coreografias de Chuck Berry.

   O percussionista Bill Summers trouxe outra faceta da música de New Orleans, a forte influência da música caribenha e africana. E, com Watermelon man, relembrou os tempos em que era um dos míticos Headhunters, banda de Herbie Hancock que delineou o funk jazz nos anos 70. Outro ponto alto do show foi Minnie the moocher, com toda a platéia entoando o refrão popularizado pelos Blues Brothers. A cantora Tamika deu uma canja e o carismático Troy Andrews participou do show inteiro, cantando, dançando com o público e tocando trombone e corneta.

   O cantor de zydeco Rockin’ Dopsie Jr., irmão de Dwayne Dopsie, que foi a revelação do festival no ano passado, foi outro que agitou a pláteia. Em Sex machine, rodopiou e jogou-se no chão como se fosse o próprio James Brown. O repertório, por sinal, foi só de sucessos do pop-rock, todos em ritmo de zydeco: Purple rain, Superstitious, Hey Joe, I shot the sheriff etc. Além de cantar, ele toca rubboard (ou frottoir, em francês), um instrumento de percussão de lata, que, assim como o acordeão, não pode faltar em nenhum grupo do gênero.

 

 

 

Bonerama com Troy Andrews (terceiro da esq. para a dir.) (crédito: Ronaldo Pereira)

 

Canja de Big Time com Little Freddie King (foto: Rui Bueno)

 

Rockin’ Dopsie Jr. tocando rubboard  (foto: Rui Bueno)

 

Wanda Rouzan no Parque do Ibirapuera (foto: Felipe Reis)

 

Donald Harrison no Bourbon (foto: Rui Bueno)

 

Bill Summers foi dos Headhunters, de Herbie Hancock (foto: Ronaldo Pereira)

 

A figuraça Little Freddie King (foto: Rui Bueno)

 

 

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