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Festival
de Ouro Preto trouxe Dave Holland e Kurt Elling
Por
Helton Ribeiro
O
Tudo é Jazz, em Ouro Preto (MG), realizou em setembro sua edição
mais ambiciosa. A programação foi mais extensa, incluindo doze
atrações internacionais (contra nove no ano passado), entre elas
Dave Holland, um dos maiores contrabaixistas em atividade; o cantor
Kurt Elling, também um dos maiores, e Jason Moran, eleito a revelação
do ano pela prestigiosa revista Down Beat.
Outro mérito foi o aumento dos shows
com entrada franca. Vale mencionar o palco no pátio da igreja do
Rosário, cujas arquibancadas eram as escadarias da igreja, e os
shows a bordo do trenzinho turístico que liga Ouro Preto a Mariana.
Jason Moran, que há alguns anos veio
ao antigo festival Chivas Jazz como revelação, hoje é um músico
maduro, no auge da carreira. Ele descontrói qualquer coisa, do
standard Milestone ao spiritual I feel like a motherless child,
passando por I’ll play the blues for you e até uma citação de
Radio activity, do eletrônico Kraftwerk. O ritmo intenso e os
improvisos coletivos do trio mantêm uma tensão constante: mesmo as
passagens mais climáticas são intermitentemente cortadas por
trechos de alto impacto, ou vão crescendo até quase o descontrole.
Seria um desafio para outro músico
tocar logo depois de Moran. Mas Dave Holland, além de ser um dos
maiores nomes do jazz na atualidade, se superou. O excelente
quinteto que o acompanha há alguns anos está mais solto e
entrosado. O saxofonista Chris Potter, que resgata o timbre rouco
dos antigos honkers, dialoga animadamente com o trombonista Robin
Eubanks, dispensando os costumeiros uníssonos. O baterista Nate
Smith saiu-se bem em um solo de samba, e trocou as baquetas pelas mãos
em um dueto com o líder, que exibiu seu sofisticado senso melódico.
Kurt Elling também foi perfeito. Ele
toma emprestado recursos da ópera, do soul e do pop sem soar menos
jazzístico, mesmo praticamente abolindo os vibratos. Um toque de
bom humor é o gestual estranho, que o faz parecer um cantor da
Broadway canastrão. A banda econômica, com um bom pianista, cumpre
o papel de emoldurar a voz sem competir com ela.
O Garage à Trois tornou-se um trio de
quatro (sem duplo sentido), com a entrada do vibrafonista Mike
Dillon. Seu conceito é semelhante ao de Jason Moran, ou seja,
“tudo é jazz”: rock pesado, samba (com os quatro na percussão),
referências à música indiana e aos tambores do kodo japonês. O
approach é de uma banda de rock: o saxofonista Skerik usa pedal de
efeitos e canta de forma esganiçada; o baterista Stanton Moore toca
de maneira quase tribal, enquanto Dillon espanca o vibrafone.
Baixista? Para quê, se Charlie Hunter pode fazer as linhas de baixo
na sua guitarra de oito cordas? Tinha tudo para ser uma calamidade,
mas foi outra das melhores apresentações do festival. Skerik
recebeu um cumprimento pouco usual: “Gatinho!”, gritou uma fã.
O saxofonista italiano Francesco Cafiso
surpreendeu pela técnica fenomenal, e mais ainda porque seus 17
anos não são de carreira, mas de idade! Embora seja
tradicionalista, considerado o Charlie Parker italiano, ele não
chega a renegar a evolução do jazz – um dos pontos altos de seu
show foi a versão retrô, bebop, de Blue train (Coltrane). A
torrente incansável de notas aquietou-se na bela balada My funny
valentine.
O acordeonista francês Richard Galiano,
que funde jazz com tango e baião, acrescentou um colorido diferente
ao show convidando o bandolinista Hamilton de Holanda para uma
participação especial. Juntos, tocaram números de Sivuca e Nelson
Cavaquinho.
O violinista Zach Brock promoveu o
encontro inusitado da música klezmer (judaica) com a cigana da
dupla Stephane Grapelli & Django Reinhardt.
A nota fora do tom ficou com Toninho
Horta. Ele e parte da banda não compareceram à passagem de som e,
como resultado, o show foi um desastre. Ele parou uma música para
xingar os técnicos de som, e acabou encerrando a apresentação
pela metade.
Apresentaram-se ainda no festival a
Preservation Hall Jazz Band, o guitarrista Kurt Rosenwinkel, o
violinista austríaco Rudi Berger, o flautista franco-africano Magic
Malik e o pianista italiano Danilo Rea, além de um extenso elenco
nacional.
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Palco
ao ar livre na igreja do Rosário

Dave
Holland se superou
(Fotos:
Piero d'Avila)
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