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Um ano sem Ulysses Cazallas
Em outubro fez um ano que morreu um dos pioneiros da gaita no
Brasil, Ulysses Cazallas. Ele se foi em 28 de outubro de 2006, em
Santos (SP), aos 72 anos, de causa desconhecida. Acredita-se que
tenha sido em decorrência de diabetes, da qual ele sofria há
muitos anos.
Cazallas nasceu
em São Paulo
, em 11 de novembro de 1933, e tocou durante 63 anos, desde os nove
de idade até o fim da vida. Apresentou-se em programas de rádio,
como Hora da Gaita (em 1945), e televisão (Calouros em
Desfile, apresentado pelo célebre Ari Barroso, no qual ficou em
primeiro lugar). Em 1962 integrou o grupo Os Harmonicistas, do
gaitista Zezinho de Lima, conhecido como Kley Williams.
Foi professor de gaita e de
manutenção do instrumento durante muitos anos, tendo formado vários
gaitistas, entre eles o diretor da Bends Harmônicas, Melk Rocha,
que tinha contratado Cazallas um mês para trabalhar no setor
de desenvolvimento de produtos da fábrica.
Publicamos abaixo um comovente depoimento de Melk sobre o mestre.
Um
senhor atencioso e muito generoso
(por
Melk Rocha)
Lembro-me como se fosse agora de quando cheguei, numa manhã
de sábado, na Av. Melchert, 153 e dei de cara com um senhor
simples, atencioso e muito generoso. Acredito que isso tenha sido em
1997.
Ali realmente aprendi o BE-A-BÁ da gaita. O Ulysses me
perguntou se eu conhecia teoria musical e respondi que não, então
ele falou que daria as aulas apenas com teoria musical. Relutei
bastante por preguiça; eu era capaz de decorar exercícios gigantes
com 380 notas só para não ler... hehehe, mas depois foi rolando.
Na primeira aula o Ulysses me mostrou como funcionava todo o
método dele, que realmente era todo em partituras, me tranqüilizou
e começou, com toda paciência, a me ensinar.
E através daqueles momentos de estudo fomos nos conhecendo
cada vez mais, conversando sobre gaitas, e pude perceber que ali, na
minha frente, estava uma lenda viva das gaitas.
Nessa época a família do Ulysses morava
em São Vicente
(SP) e ele ficava
em São Paulo
um tempo para dar aulas e depois passava uns dias com a família. E
voltava. Tudo pela gaita. Depois ele mudou para uma casa na mesma
avenida e trouxe a família toda para São Paulo.
A nova casa do Ulysses virou uma biblioteca da gaita com
muitas fotos dos grupos dos quais ele participou, gravações de
programas de TV, muitas fitas K7, fitas de vídeo com muitos shows
de diversos estilos, filmes com harmônica Rascals e muito mais...
Ali eu conheci o mundo da música, da diatônica e da cromática.
Estudei o método do Ulysses todo com diatônica ainda
e logo ele me apresentou a cromática. Gostei muito, e logo comecei
a estudar também.
As minhas aulas eram divididas em duas partes: diatônica e
depois cromática. Crescia muito o meu interesse, e a minha dedicação
também.
Até que um belo dia o Ulysses me convidou para ir ao evento
do Sérgio Duarte no Mr. Blues Bar. E o Ulysses
"praticamente" me colocou no palco para tocar, quer dizer,
efetivamente.
Depois disso uma pessoa ligou para o Ulysses e perguntou se
ele tinha algum aluno avançado para indicar para tocar em uma banda
de blues-rock, o Ulysses respondeu que sim e esse aluno era eu....Hehehe
o Ulysses me indicou.
É isso ai o Ulysses me colocou em uma banda. Era o Expresso
Tennessee, banda em que toquei por 5 anos. Em muitos dos shows o
Ulysses estava com a banda, lembro me de varias madrugadas juntos e
ainda, depois, eu ia dormir na casa dele.
Passei a respirar gaita junto com o Ulysses, aprendi muito:
teoria musical, a respirar, a soprar, a aspirar, dinâmica, a usar
poucas notas e no momento certo, trocar minha primeira palheta e
afinar a primeira gaita.
Tudo o que eu sei de gaita hoje devo muito ao Ulysses
Cazallas, que me apresentou um novo mundo, e desse convívio aprendi
que a gaita é um grande instrumento.
As melhores lições que tive foram resultado do conviver com
esse Mestre.
Um beijo no pâncreas, como ele mesmo falava.
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